Estados e municípios cobram atualização das normas que regem o atendimento pré-hospitalar no Brasil. Defasagem estrutural, falta de profissionais e integração com bombeiros colocam em xeque um modelo criado há mais de 20 anos.
Por Adriano Lourenço
As discussões em diversos estados brasileiros sobre reformulação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) abriram um tema ainda mais profundo: a necessidade de revisão da Portaria 2048, norma do Ministério da Saúde que há mais de duas décadas estabelece diretrizes para o atendimento pré-hospitalar de urgência e emergência no Brasil.
Publicada em 2002, a Portaria 2048 se tornou um marco
regulatório para organização do socorro móvel no país. Ela definiu critérios
para funcionamento de ambulâncias, composição mínima das equipes, regulação
médica, classificação de viaturas, estrutura de centrais e integração com
hospitais. Na prática, foi a base técnica que preparou o terreno para a
implantação nacional do SAMU anos depois.
Porém, passados mais de vinte anos, gestores
estaduais, prefeitos, profissionais da saúde e especialistas afirmam que a
realidade mudou — e muito. O crescimento populacional, a expansão urbana
desordenada, o aumento da violência, o envelhecimento da população e o avanço
tecnológico criaram uma nova demanda para o atendimento de urgência. O que
servia em 2002 já não responde integralmente aos desafios de 2026.
É nesse cenário que estados começam a pressionar por
atualização da norma. O debate envolve permitir maior flexibilidade regional,
ampliar integração com Corpos de Bombeiros, modernizar protocolos de regulação
e rever exigências de equipes mínimas em áreas remotas onde faltam médicos.
Hoje, muitos municípios enfrentam dificuldades para
manter ambulâncias avançadas porque a legislação exige profissionais que
simplesmente não estão disponíveis em determinadas regiões. O resultado é
viatura parada, base fechada ou população desassistida. Governadores e
prefeitos defendem que uma revisão da Portaria 2048 poderia adaptar exigências
sem comprometer a segurança do paciente.
Outro impacto importante seria a integração
operacional entre SAMU e Bombeiros. Em vários estados já existe atuação
paralela: uma estrutura atende trauma e resgate, outra atende emergências
clínicas. Na prática, isso gera sobreposição, disputa de competência e
desperdício de recursos. Uma nova regulamentação poderia permitir centrais
únicas, despacho inteligente e uso compartilhado de frota e equipes.
A tecnologia também entrou no debate. Quando a
portaria foi criada, telemedicina, georreferenciamento em tempo real,
prontuário digital móvel e inteligência de rota praticamente não existiam no
sistema público. Hoje, especialistas defendem que qualquer modernização precisa
incluir monitoramento por GPS, vídeo-regulação médica e integração direta entre
ambulância e hospital de destino.
Mas mudar a Portaria 2048 não é tarefa simples. A
norma sustenta boa parte da organização do atendimento de urgência no país.
Alterações mal planejadas podem gerar insegurança jurídica, conflitos
trabalhistas, judicialização e descontinuidade no socorro. Sindicatos e
conselhos profissionais já alertam que flexibilização excessiva pode significar
precarização do serviço.
Há também o risco político. Em alguns estados, o
discurso de “modernização” pode esconder apenas cortes de gastos. Trocar
equipes completas por estruturas mais baratas sem planejamento técnico pode
reduzir qualidade e aumentar mortalidade em ocorrências graves.
Por outro lado, manter uma regra envelhecida também
cobra preço alto. Municípios pequenos enfrentam exigências difíceis de cumprir,
capitais lidam com explosão de demanda e regiões metropolitanas sofrem com
lentidão no tempo-resposta. O país mudou, mas parte da regulação segue ancorada
em outro tempo.
A tendência é que a pressão aumente nos próximos
meses. Secretarias estaduais de saúde, consórcios municipais e entidades do
setor defendem que o Ministério da Saúde abra uma mesa nacional para revisão da
Portaria 2048, ouvindo médicos, enfermeiros, socorristas, bombeiros e gestores
públicos.
No centro desse debate está uma pergunta decisiva: o
Brasil vai atualizar suas regras de urgência para salvar mais vidas ou
continuará preso a um modelo que já mostra sinais claros de desgaste?
Diante dos problemas que o SAMU vem enfrentando e acumulando
ao longo dos anos desde a fundação, será que ainda faz sentido uma Ambulância
tipo B considerada de Suporte Básico de Vida, ter a capacidade como é
recomendado de atender entre 100 e 150 mil habitantes e as tipo D, especificas
para vítimas graves USA tem suporte suficiente para cobrir de acordo a recomendação
400 a 450 habitantes.
Tem mais, nos Pressupostos para implantação da
política nacional de atenção às urgências existe no item quatro a “Qualificação
e educação permanente das equipes de saúde de todos os âmbitos da atenção
(promoção, atenção básica, assistência pré-hospitalar e assistência
hospitalar), seja dos profissionais de nível superior ou dos profissionais
técnicos, promovendo capacitação profissional mediante uma educação em
urgências em acordo com às diretrizes do SUS, e alicerçada nos Pólos de
Educação Permanente em Saúde”, de fato isto vem sendo cumprido, pois de
acordo com relatos, a coisa não é bem assim.
O que preocupa a todos principalmente quem está na
ponta, ou seja, nas ruas atendendo em qualquer horário é, caso as mudanças
sejam favoráveis como já está para acontecer no Mato
Grosso, o serviço sendo substituído por Bombeiros fica a dúvida.
Como ficará a qualidade do serviço, os atendimentos clínicos
continuarão com propriedades, os treinamentos chegarão há tempo aos Bombeiros e
por fim, qual a opinião da sociedade quando souber que além destes problemas, alguns
municípios como Belo
Horizonte, buscam reduzir suas equipes.
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