Apesar de avanços nos indicadores educacionais, o Brasil ainda enfrenta desafios históricos que comprometem a formação de crianças, jovens e adultos. Analfabetismo, evasão escolar, violência nas escolas, dificuldades de acesso ao ensino superior e um mercado de trabalho cada vez mais exigente ajudam a explicar por que o país permanece distante das nações que transformaram a educação em prioridade de Estado.
Por Adriano Lourenço
A imagem que circula nas redes sociais colocando o Brasil na 65ª posição entre os países com melhor educação do mundo pode gerar debate sobre a metodologia utilizada. Porém, independentemente do ranking específico, ela expõe uma realidade difícil de contestar: o Brasil continua enfrentando desafios históricos para garantir educação de qualidade para crianças, jovens e adultos.
Embora os indicadores educacionais tenham apresentado avanços nos últimos anos, o país ainda convive com milhões de brasileiros sem alfabetização plena, evasão escolar, violência dentro das escolas, desvalorização dos professores e dificuldades de acesso ao ensino superior.
O analfabetismo ainda é uma ferida aberta
Dados mais recentes do IBGE mostram que o Brasil ainda possui cerca de 9,1 milhões de pessoas analfabetas com 15 anos ou mais, o equivalente a 5,3% da população nessa faixa etária. Apesar de ser a menor taxa da série histórica, o número continua alarmante para uma das maiores economias do mundo.
A situação é ainda mais grave entre idosos e regiões historicamente vulneráveis. O problema demonstra que o país não conseguiu universalizar plenamente o acesso à alfabetização, especialmente para adultos que não tiveram oportunidade de estudar na idade adequada.
O desafio permanente da EJA
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) surgiu justamente para corrigir essa distorção histórica. Entretanto, muitas turmas são fechadas por falta de alunos, enquanto trabalhadores enfrentam jornadas exaustivas que dificultam a permanência na escola.
Muitos brasileiros precisam escolher entre estudar ou colocar comida na mesa. A consequência é um ciclo de baixa escolaridade, menor renda e poucas oportunidades profissionais.
Sem investimentos consistentes na EJA, o Brasil continuará convivendo com gerações que foram excluídas do sistema educacional e que dificilmente conseguirão recuperar o tempo perdido.
A evasão escolar continua preocupante
Segundo dados do IBGE, mais de 8 milhões de jovens entre 14 e 29 anos abandonaram ou sequer frequentaram o ensino médio. Entre os principais motivos estão a necessidade de trabalhar, gravidez precoce e falta de interesse nos estudos.
A evasão escolar não é apenas um problema educacional. Ela está diretamente ligada ao aumento da vulnerabilidade social.
Quando um adolescente abandona a escola, suas chances de inserção qualificada no mercado de trabalho diminuem drasticamente. Em muitos casos, a rua passa a ocupar o espaço que deveria ser da sala de aula.
Violência, tráfico e agressões dentro das escolas
Outro desafio crescente é a insegurança no ambiente escolar.
Professores relatam aumento de agressões físicas e verbais, enquanto escolas localizadas em áreas vulneráveis convivem diariamente com a influência de facções criminosas e do tráfico de drogas.
Em diversas comunidades, organizações criminosas acabam exercendo influência sobre jovens que enxergam no crime uma alternativa mais rápida de ascensão financeira do que anos de estudo.
O resultado é devastador: crianças e adolescentes são recrutados cada vez mais cedo para atividades ilícitas, comprometendo seu futuro e ampliando os índices de violência.
O Pé-de-Meia resolve ou apenas ameniza o problema?
O programa Pé-de-Meia foi criado com o objetivo de reduzir a evasão escolar através de incentivos financeiros para estudantes do ensino médio.
Os defensores do programa afirmam que ele ajuda a manter jovens na escola. Já os críticos argumentam que a política pública não enfrenta as causas estruturais do problema, como a baixa qualidade do ensino, a falta de perspectiva profissional e a ausência de oportunidades econômicas para as famílias.
O debate permanece aberto: pagar para o aluno permanecer na escola é suficiente para transformar sua realidade ou apenas posterga problemas que exigem soluções mais profundas?
A geração "nem-nem" e a incerteza sobre o futuro
Outro dado preocupante do IBGE é o contingente de jovens que não estudam nem trabalham, conhecidos popularmente como "nem-nem".
Em 2024, aproximadamente 8,8 milhões de jovens encontravam-se nessa situação, representando cerca de 18,5% da população entre 15 e 29 anos.
Trata-se de uma geração que enfrenta dificuldades para concluir os estudos e, ao mesmo tempo, encontra barreiras para ingressar no mercado de trabalho.
Sem qualificação e sem emprego, muitos acabam presos a uma condição de dependência financeira e insegurança quanto ao futuro.
O sonho do ensino superior e a realidade das dívidas
Chegar à universidade ainda é um desafio para milhões de brasileiros.
Mesmo com programas como o FIES, muitos estudantes concluem seus cursos acumulando dívidas significativas.
O problema se agrava quando o recém-formado encontra um mercado de trabalho saturado, exigindo experiência profissional justamente de quem busca o primeiro emprego.
O resultado é um cenário conhecido por muitas famílias brasileiras: diploma na mão, dificuldade de colocação profissional e parcelas do financiamento estudantil chegando todos os meses.
Embora o percentual de brasileiros com ensino superior tenha crescido nos últimos anos, apenas cerca de 20,5% da população adulta possui graduação completa.
Uma questão de prioridade nacional
Os números mostram que o Brasil avançou em alguns indicadores educacionais, mas ainda está distante dos países que lideram os rankings internacionais.
Finlândia, Coreia do Sul, Canadá e Japão transformaram a educação em política de Estado. No Brasil, a educação frequentemente se torna tema de campanhas eleitorais, mas raramente recebe a continuidade necessária para produzir mudanças estruturais.
Enquanto milhões de brasileiros ainda enfrentarem analfabetismo, evasão escolar, violência nas escolas, dificuldades de acesso ao ensino superior e barreiras para conseguir o primeiro emprego, o país continuará distante das nações que enxergam a educação não como gasto, mas como investimento.
A grande pergunta que permanece é simples: o Brasil quer realmente ser uma potência educacional ou continuará tratando a educação como prioridade apenas nos discursos?