quarta-feira, 1 de julho de 2026

Brasil em 65º lugar: o retrato de uma educação que ainda luta para ser prioridade

 Apesar de avanços nos indicadores educacionais, o Brasil ainda enfrenta desafios históricos que comprometem a formação de crianças, jovens e adultos. Analfabetismo, evasão escolar, violência nas escolas, dificuldades de acesso ao ensino superior e um mercado de trabalho cada vez mais exigente ajudam a explicar por que o país permanece distante das nações que transformaram a educação em prioridade de Estado.

Por Adriano Lourenço

A imagem que circula nas redes sociais colocando o Brasil na 65ª posição entre os países com melhor educação do mundo pode gerar debate sobre a metodologia utilizada. Porém, independentemente do ranking específico, ela expõe uma realidade difícil de contestar: o Brasil continua enfrentando desafios históricos para garantir educação de qualidade para crianças, jovens e adultos.

Embora os indicadores educacionais tenham apresentado avanços nos últimos anos, o país ainda convive com milhões de brasileiros sem alfabetização plena, evasão escolar, violência dentro das escolas, desvalorização dos professores e dificuldades de acesso ao ensino superior.

O analfabetismo ainda é uma ferida aberta

Dados mais recentes do IBGE mostram que o Brasil ainda possui cerca de 9,1 milhões de pessoas analfabetas com 15 anos ou mais, o equivalente a 5,3% da população nessa faixa etária. Apesar de ser a menor taxa da série histórica, o número continua alarmante para uma das maiores economias do mundo.

A situação é ainda mais grave entre idosos e regiões historicamente vulneráveis. O problema demonstra que o país não conseguiu universalizar plenamente o acesso à alfabetização, especialmente para adultos que não tiveram oportunidade de estudar na idade adequada.

O desafio permanente da EJA

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) surgiu justamente para corrigir essa distorção histórica. Entretanto, muitas turmas são fechadas por falta de alunos, enquanto trabalhadores enfrentam jornadas exaustivas que dificultam a permanência na escola.

Muitos brasileiros precisam escolher entre estudar ou colocar comida na mesa. A consequência é um ciclo de baixa escolaridade, menor renda e poucas oportunidades profissionais.

Sem investimentos consistentes na EJA, o Brasil continuará convivendo com gerações que foram excluídas do sistema educacional e que dificilmente conseguirão recuperar o tempo perdido.

A evasão escolar continua preocupante

Segundo dados do IBGE, mais de 8 milhões de jovens entre 14 e 29 anos abandonaram ou sequer frequentaram o ensino médio. Entre os principais motivos estão a necessidade de trabalhar, gravidez precoce e falta de interesse nos estudos.

A evasão escolar não é apenas um problema educacional. Ela está diretamente ligada ao aumento da vulnerabilidade social.

Quando um adolescente abandona a escola, suas chances de inserção qualificada no mercado de trabalho diminuem drasticamente. Em muitos casos, a rua passa a ocupar o espaço que deveria ser da sala de aula.

Violência, tráfico e agressões dentro das escolas

Outro desafio crescente é a insegurança no ambiente escolar.

Professores relatam aumento de agressões físicas e verbais, enquanto escolas localizadas em áreas vulneráveis convivem diariamente com a influência de facções criminosas e do tráfico de drogas.

Em diversas comunidades, organizações criminosas acabam exercendo influência sobre jovens que enxergam no crime uma alternativa mais rápida de ascensão financeira do que anos de estudo.

O resultado é devastador: crianças e adolescentes são recrutados cada vez mais cedo para atividades ilícitas, comprometendo seu futuro e ampliando os índices de violência.

O Pé-de-Meia resolve ou apenas ameniza o problema?

O programa Pé-de-Meia foi criado com o objetivo de reduzir a evasão escolar através de incentivos financeiros para estudantes do ensino médio.

Os defensores do programa afirmam que ele ajuda a manter jovens na escola. Já os críticos argumentam que a política pública não enfrenta as causas estruturais do problema, como a baixa qualidade do ensino, a falta de perspectiva profissional e a ausência de oportunidades econômicas para as famílias.

O debate permanece aberto: pagar para o aluno permanecer na escola é suficiente para transformar sua realidade ou apenas posterga problemas que exigem soluções mais profundas?

A geração "nem-nem" e a incerteza sobre o futuro

Outro dado preocupante do IBGE é o contingente de jovens que não estudam nem trabalham, conhecidos popularmente como "nem-nem".

Em 2024, aproximadamente 8,8 milhões de jovens encontravam-se nessa situação, representando cerca de 18,5% da população entre 15 e 29 anos.

Trata-se de uma geração que enfrenta dificuldades para concluir os estudos e, ao mesmo tempo, encontra barreiras para ingressar no mercado de trabalho.

Sem qualificação e sem emprego, muitos acabam presos a uma condição de dependência financeira e insegurança quanto ao futuro.

O sonho do ensino superior e a realidade das dívidas

Chegar à universidade ainda é um desafio para milhões de brasileiros.

Mesmo com programas como o FIES, muitos estudantes concluem seus cursos acumulando dívidas significativas.

O problema se agrava quando o recém-formado encontra um mercado de trabalho saturado, exigindo experiência profissional justamente de quem busca o primeiro emprego.

O resultado é um cenário conhecido por muitas famílias brasileiras: diploma na mão, dificuldade de colocação profissional e parcelas do financiamento estudantil chegando todos os meses.

Embora o percentual de brasileiros com ensino superior tenha crescido nos últimos anos, apenas cerca de 20,5% da população adulta possui graduação completa.

Uma questão de prioridade nacional

Os números mostram que o Brasil avançou em alguns indicadores educacionais, mas ainda está distante dos países que lideram os rankings internacionais.

Finlândia, Coreia do Sul, Canadá e Japão transformaram a educação em política de Estado. No Brasil, a educação frequentemente se torna tema de campanhas eleitorais, mas raramente recebe a continuidade necessária para produzir mudanças estruturais.

Enquanto milhões de brasileiros ainda enfrentarem analfabetismo, evasão escolar, violência nas escolas, dificuldades de acesso ao ensino superior e barreiras para conseguir o primeiro emprego, o país continuará distante das nações que enxergam a educação não como gasto, mas como investimento.

A grande pergunta que permanece é simples: o Brasil quer realmente ser uma potência educacional ou continuará tratando a educação como prioridade apenas nos discursos?

Do chicote à carteira de trabalho: o trabalhador mudou de século, mas será que a exploração mudou de lado?

 O Brasil aboliu a escravidão em 1888. Mas, em pleno século XXI, denúncias de agressões a trabalhadores, discussões sobre direitos, greves contestadas e regras cada vez mais rígidas para a aposentadoria levantam uma pergunta incômoda: o trabalhador brasileiro conquistou respeito ou apenas mudou a forma de ser explorado?

Por Adriano Lourenço

Brasil aboliu a escravidão em 1888. Mas, em pleno século XXI, denúncias de agressões a trabalhadores, discussões sobre direitos, greves contestadas e regras cada vez mais rígidas para a aposentadoria levantam uma pergunta incômoda: o trabalhador brasileiro conquistou respeito ou apenas mudou a forma de ser explorado?

A história do trabalho é, antes de tudo, a história da luta por dignidade.

Durante a Revolução Industrial, homens, mulheres e crianças enfrentavam jornadas que ultrapassavam 14 horas diárias, sem férias, descanso remunerado ou qualquer garantia trabalhista. Acidentes eram tratados como parte da rotina. A vida do trabalhador valia menos que a produtividade das fábricas.

No Brasil, antes disso, a escravidão marcou profundamente as relações de trabalho. Milhões de pessoas foram arrancadas da África, acorrentadas, castigadas com chicotes, submetidas às senzalas e transformadas em mercadorias humanas.

A abolição da escravidão representou um marco histórico, mas não eliminou todas as formas de exploração.

Décadas depois vieram importantes conquistas: salário mínimo, férias remuneradas, jornada limitada, licença-maternidade, descanso semanal, décimo terceiro salário, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e diversos outros direitos consolidados pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Mesmo assim, a luta nunca terminou.

Quando trabalhadores cruzam os braços reivindicando melhores salários, condições dignas ou respeito, muitas vezes encontram resistência não apenas dos empregadores, mas também do próprio sistema judicial. Em diversas ocasiões, greves acabam sendo consideradas abusivas ou sofrem restrições impostas pela Justiça, especialmente quando envolvem serviços essenciais. O direito constitucional de greve frequentemente entra em conflito com o interesse público e com a continuidade dos serviços.

Outro tema que gera enorme preocupação é a aposentadoria.

As mudanças nas regras previdenciárias elevaram a idade mínima e o tempo de contribuição, fazendo com que milhões de brasileiros precisem permanecer por mais tempo no mercado de trabalho para conquistar o benefício. Para quem começou a trabalhar muito cedo ou exerce atividades pesadas, a sensação é de que a linha de chegada foi novamente empurrada para frente.

Como se isso não bastasse, episódios recentes reacenderam uma indignação que parecia pertencer apenas aos livros de História.

Em uma fábrica da multinacional chinesa Midea, em Pouso Alegre (MG), um gerente chinês foi acusado por trabalhadores e pelo sindicato de agredir um funcionário brasileiro com uma correia de borracha, episódio que rapidamente ganhou repercussão nacional. A empresa afastou o gestor e informou que apura o caso, embora conteste a versão de que tenha ocorrido um "chicoteamento".

Independentemente da conclusão das investigações, os relatos provocaram indignação. A palavra "chicote" carrega um peso histórico impossível de ignorar. Ela remete imediatamente ao período escravocrata, quando a violência física era utilizada como instrumento de dominação. Ver denúncias semelhantes surgirem em pleno século XXI provoca um inevitável choque entre passado e presente.

Infelizmente, esse não é um caso isolado.

Ano após ano, operações de fiscalização continuam resgatando trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão em fazendas, carvoarias, garimpos e grandes obras. Jornadas exaustivas, alojamentos precários, retenção de documentos e restrição da liberdade ainda fazem parte da realidade de muitos brasileiros.

Essa realidade também levanta outro debate: onde estão os Direitos Humanos quando o assunto é a dignidade do trabalhador? Até o momento, ao menos sob a ótica da repercussão pública, não houve manifestações de grande destaque sobre o episódio envolvendo a fábrica em Minas Gerais, o que alimenta críticas de quem vê uma atuação seletiva diante de determinadas pautas.

O trabalhador brasileiro não precisa de discursos. Precisa de respeito. Precisa voltar para casa sem humilhação. Precisa ter segurança para reivindicar seus direitos sem medo de punições desproporcionais. Precisa confiar que décadas de trabalho serão suficientes para garantir uma aposentadoria digna. E precisa ter a certeza de que, dentro de qualquer empresa, seja ela brasileira ou estrangeira, a legislação nacional será respeitada acima de qualquer cultura empresarial.

Porque um país que permite que o trabalhador seja tratado como descartável não está apenas desrespeitando sua legislação. Está traindo a própria história.

A escravidão foi abolida há mais de um século, mas toda vez que um trabalhador é humilhado, agredido ou submetido a condições degradantes, a sociedade recebe um duro lembrete de que a liberdade não pode existir apenas no papel. Ela precisa estar presente, todos os dias, no chão de fábrica, no campo, no comércio e em qualquer ambiente onde alguém viva do próprio trabalho.

Condutores de ambulância: reconhecimento na lei, valorização ainda distante da realidade

Apesar da regulamentação da profissão pela Lei nº 15.250/2025, os condutores de ambulância ainda enfrentam uma rotina marcada por baixos salários em diversas regiões do país, jornadas exaustivas, falta de seguro de vida e condições de trabalho que, segundo a categoria, estão longe de refletir a importância de quem diariamente transporta pacientes e ajuda a salvar vidas.

Por Adriano Lourenço


Quando uma ambulância cruza a cidade com a sirene ligada, a atenção da população se volta para o paciente que está sendo socorrido. Poucos, porém, percebem que atrás do volante está um profissional que também coloca a própria vida em risco para garantir que o atendimento aconteça a tempo. Os condutores de ambulância convivem diariamente com o trânsito caótico, rodovias perigosas, acidentes, violência urbana e a enorme responsabilidade de transportar pacientes em estado grave. São profissionais que precisam agir com rapidez, equilíbrio emocional e conhecimento técnico, sabendo que qualquer erro pode custar uma vida.

A regulamentação da profissão pela Lei nº 15.250/2025 representou uma conquista histórica. A legislação definiu os requisitos para o exercício da atividade, reconheceu oficialmente a categoria e assegurou direitos importantes, como a possibilidade de acumulação de cargos públicos, desde que haja compatibilidade de horários e sejam respeitados os períodos legais de descanso. Trata-se de um reconhecimento que fortalece uma categoria que há décadas reivindicava espaço e respeito. Entretanto, o reconhecimento jurídico ainda não se traduziu em valorização profissional.

Em todo o país, a categoria enfrenta uma realidade marcada por salários desiguais entre estados e municípios, jornadas de trabalho exaustivas e condições que, muitas vezes, não refletem a importância da função exercida. Há municípios onde os vencimentos são significativamente inferiores aos praticados em outras regiões, evidenciando a ausência de uma política nacional que estabeleça critérios mínimos de valorização. Essa disparidade faz com que muitos profissionais precisem buscar uma segunda fonte de renda para garantir o sustento de suas famílias, realidade que a própria legislação passou a reconhecer ao permitir, dentro dos limites legais, a acumulação de cargos.

Outro desafio é a falta de um seguro de vida específico para a categoria. Os condutores enfrentam diariamente riscos elevados de acidentes, longas viagens, situações de emergência e ocorrências que colocam suas vidas em perigo. Apesar disso, muitos continuam trabalhando sem qualquer proteção adicional para suas famílias caso ocorra uma tragédia durante o exercício da profissão.

Nos últimos meses, parlamentares têm intensificado discursos em defesa dos condutores de ambulância, apresentando propostas e prometendo avanços para a categoria. É positivo que o tema esteja sendo debatido no Congresso Nacional, principalmente em um momento em que a profissão conquistou sua regulamentação. No entanto, os profissionais esperam que essas manifestações não se limitem ao período que antecede as eleições. A categoria cobra que o debate resulte em medidas concretas, como remuneração compatível com a responsabilidade da função, definição de uma carga horária mais humana, garantia de descanso adequado, investimentos em capacitação permanente, melhores condições de trabalho, criação de um seguro de vida específico e políticas públicas que assegurem dignidade à profissão.

Os condutores de ambulância não transportam apenas pacientes. Eles transportam esperança, urgência e a expectativa de que vidas possam ser salvas. São homens e mulheres que enfrentam diariamente situações extremas para cumprir uma missão essencial ao funcionamento da saúde pública. Merecem muito mais do que homenagens em datas comemorativas ou promessas em discursos políticos. Merecem respeito permanente, reconhecimento efetivo e valorização concreta.

Uma sociedade que confia aos condutores de ambulância a missão de salvar vidas não pode aceitar que esses profissionais continuem enfrentando jornadas exaustivas, remuneração desigual, falta de proteção e insegurança profissional. O reconhecimento legal foi uma conquista histórica. Agora, cabe aos gestores públicos e ao Congresso Nacional transformar esse reconhecimento em políticas efetivas, para que quem conduz a esperança também tenha garantidos seus direitos, sua segurança e sua dignidade.

Pauta-bomba ou reconhecimento? O embate em torno dos agentes comunitários de saúde

Por Adriano Lourenço


O Senado Federal vive mais um capítulo de tensão entre o Congresso e o governo. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, colocou em votação uma proposta considerada pela equipe econômica uma verdadeira "pauta-bomba": a PEC que cria regras de aposentadoria especial para os Agentes Comunitários de Saúde e Agentes de Combate às Endemias.

Pela proposta, esses profissionais poderão se aposentar com critérios diferenciados, levando em conta os anos dedicados ao serviço público e as condições em que exercem suas atividades. O governo argumenta que a medida pode gerar um impacto bilionário nas contas públicas ao longo dos próximos anos, comprometendo o equilíbrio da Previdência e dos orçamentos da União e dos municípios.

Por outro lado, representantes da categoria afirmam que não se trata de privilégio, mas de reconhecimento. São milhares de profissionais que percorrem diariamente comunidades, enfrentam sol, chuva, violência urbana e riscos sanitários para garantir vacinação, acompanhamento de gestantes, idosos, crianças e ações de prevenção de doenças.

O debate ultrapassa a questão fiscal. De um lado, o governo sustenta a necessidade de responsabilidade com as contas públicas. De outro, parlamentares defendem que não é possível exigir tanto desses trabalhadores sem oferecer uma proteção previdenciária compatível com a realidade da profissão.

A votação promete ser um dos principais testes da relação entre o Congresso e o Palácio do Planalto. Se aprovada, a proposta representará uma importante conquista para a categoria, mas também abrirá uma nova discussão sobre quem arcará com os custos dessa política pública e quais serão seus reflexos para as finanças do país.

Mais do que uma disputa de números, a discussão coloca em confronto duas prioridades: o equilíbrio fiscal defendido pelo governo e a valorização dos profissionais que estão na linha de frente da atenção básica em saúde.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Entre a confiança e o medo: quando remédios e vacinas passam a preocupar o brasileiro

Por Adriano Lourenço


O Brasil sempre foi reconhecido mundialmente por possuir um dos maiores programas de vacinação pública do planeta. Durante décadas, campanhas nacionais foram símbolo de eficiência, confiança popular e combate a doenças que antes matavam milhares de pessoas. A imagem do “Zé Gotinha” representava segurança. Vacinar era um ato coletivo de proteção.

Mas os tempos mudaram.

Nos últimos anos, uma sequência de notificações envolvendo reações adversas, suspensões de lotes de medicamentos e até interrupções preventivas de vacinas passou a gerar desconfiança em parte da população. O assunto voltou com força após a suspensão de lotes de medicamentos usados no tratamento de câncer de mama e hipertensão, determinada pela Anvisa, após identificação de desvios de qualidade nos produtos distribuídos no mercado brasileiro.

O episódio reacendeu uma pergunta delicada: até que ponto laboratórios, órgãos reguladores e o próprio sistema de fiscalização conseguem garantir segurança total à população?

No caso do medicamento Halaven, utilizado contra câncer de mama, a própria fabricante comunicou recolhimento voluntário após constatação de teor abaixo do especificado no princípio ativo. Já no caso da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan, notificações de eventos adversos graves provocaram investigações e suspensões preventivas em algumas localidades.

As autoridades sanitárias reforçam que ainda não existe comprovação científica de relação causal direta entre a vacina e mortes investigadas. Porém, para a população comum, a simples existência dessas notificações já é suficiente para gerar medo.

E esse medo cresce porque o brasileiro vive uma contradição: ao mesmo tempo em que depende do SUS, dos medicamentos públicos e das campanhas nacionais de vacinação, também vê aumentar a sensação de que o sistema de controle sanitário passou a atuar mais reagindo aos problemas do que prevenindo-os.

Décadas atrás, casos semelhantes dificilmente chegavam ao conhecimento popular. Isso não significa necessariamente que não existiam falhas, mas havia menos transparência, menos redes sociais e menor circulação de informações em tempo real. Hoje, qualquer suspeita viraliza em minutos, muitas vezes antes mesmo da conclusão técnica das investigações.

A consequência é perigosa.

De um lado, cresce a desconfiança contra vacinas, colocando em risco campanhas essenciais de imunização. De outro, famílias que dependem de medicamentos de alto custo passam a conviver com o temor de estarem utilizando produtos sob suspeita.

O debate precisa ser feito com responsabilidade. Questionar laboratórios, exigir rigor da Anvisa e cobrar transparência não significa defender negacionismo científico. Pelo contrário: uma sociedade madura precisa exigir fiscalização severa justamente para preservar a credibilidade da ciência.

A própria história recente mostra que suspensões sanitárias não são novidade. Em diferentes momentos, o Brasil já registrou recolhimento de implantes mamários ligados a tipos raros de câncer, interrupções temporárias em testes clínicos de vacinas e retirada de medicamentos do mercado por falhas na fabricação.

O problema é que hoje a velocidade da informação cria um ambiente de pânico permanente. Redes sociais transformam suspeitas em certezas instantâneas. Manchetes alarmistas geram cliques, mas também espalham medo. Ao mesmo tempo, governos e órgãos públicos frequentemente falham na comunicação clara com a sociedade.

Enquanto isso, inocentes seguem no meio do fogo cruzado.

Pacientes com câncer, idosos, crianças e pessoas vulneráveis dependem diariamente de medicamentos e vacinas para sobreviver. Quando um lote é suspenso ou uma reação grave é investigada, não se trata apenas de burocracia sanitária. Trata-se de vidas humanas.

O maior desafio do Brasil talvez não seja apenas produzir vacinas ou aprovar medicamentos. O verdadeiro desafio é reconstruir a confiança da população em um sistema que precisa ser transparente, rápido, técnico e, acima de tudo, responsável.

Porque quando a saúde pública perde credibilidade, o país inteiro adoece junto.



segunda-feira, 8 de junho de 2026

Trabalhador brasileiro trabalha quase metade do ano para pagar impostos enquanto luta para sobreviver

 Inflação, juros altos, alimentos caros e salários comprimidos revelam o abismo entre o discurso político e a realidade da população


Por Adriano Lourenço

Um levantamento divulgado nas redes sociais com base em dados do IBPT mostra um retrato cruel da realidade brasileira: em 1986, o trabalhador precisava dedicar cerca de 82 dias de trabalho para pagar impostos. Em 2026, esse número salta para 153 dias — praticamente cinco meses do ano destinados apenas à carga tributária.

Enquanto o peso dos tributos aumenta, a sensação da população é de que os serviços públicos continuam distantes da qualidade prometida em campanhas eleitorais. Saúde precária, insegurança, transporte público deficiente e dificuldades econômicas fazem parte da rotina de milhões de brasileiros que trabalham cada vez mais para comprar cada vez menos.

O drama é visível nas ruas, nos supermercados e dentro das casas. O preço da carne, do gás de cozinha, dos combustíveis, da energia elétrica e dos aluguéis pressiona famílias inteiras. Muitos brasileiros já não conseguem fechar as contas no fim do mês sem recorrer ao cartão de crédito, empréstimos ou parcelamentos intermináveis.

A busca pela casa própria, que já foi símbolo de estabilidade e ascensão social, virou um desafio quase inalcançável para grande parte da população. Juros elevados, imóveis valorizados artificialmente e renda insuficiente afastam o trabalhador do sonho de sair do aluguel. Em muitos casos, famílias comprometem mais da metade da renda apenas com moradia e despesas básicas.

Além disso, pequenos trabalhadores e autônomos enfrentam uma combinação sufocante: alta tributação, burocracia, inflação persistente e baixa capacidade de consumo da população. O resultado é o aumento do endividamento e da sensação de estagnação econômica.

O peso do custo de vida

O problema não está apenas no quanto se paga de imposto, mas no retorno percebido pela população. O trabalhador vê o salário desaparecer rapidamente diante de despesas essenciais. Em muitos lares, sobra mês e falta dinheiro.

A inflação acumulada dos últimos anos corroeu o poder de compra, enquanto reajustes salariais frequentemente não acompanham o aumento real do custo de vida. O resultado é uma população que trabalha mais, consome menos e perde qualidade de vida.

Especialistas frequentemente apontam que o Brasil mantém uma das cargas tributárias mais pesadas do mundo para o consumo. Isso significa que o cidadão paga imposto em praticamente tudo: comida, combustível, energia, roupas, medicamentos e até produtos básicos de higiene.

Discursos repetidos e poucas soluções concretas

Governos de diferentes espectros políticos costumam repetir promessas semelhantes: combate à inflação, crescimento econômico, geração de empregos e melhoria de vida. Porém, para grande parte da população, a percepção é de que as mudanças concretas não chegam na mesma velocidade dos discursos.

No Congresso e nos palanques, discursos sobre “justiça social”, “crescimento” e “defesa do trabalhador” continuam sendo repetidos ano após ano. Na prática, porém, muitos brasileiros sentem que faltam estratégias eficientes para reduzir o custo de vida, estimular renda real e ampliar oportunidades.

A crítica recorrente da população é que o debate político frequentemente se concentra em disputas ideológicas, alianças partidárias e interesses eleitorais, enquanto problemas cotidianos seguem sem solução estrutural. O trabalhador continua enfrentando transporte caro, alimentação pesada no orçamento, dificuldade de acesso à saúde e insegurança financeira.

Também cresce a percepção de desigualdade. Enquanto a população aperta o orçamento para sobreviver, benefícios, privilégios e altos custos da máquina pública continuam sendo alvo constante de críticas.

O trabalhador no limite

O aumento dos dias trabalhados para pagar impostos simboliza mais do que um número. Representa a sensação de desgaste de uma população que luta diariamente para manter dignidade, pagar contas e construir um futuro melhor.

Para muitos brasileiros, a pergunta já não é mais sobre enriquecer, mas simplesmente conseguir viver com estabilidade, segurança e esperança de que o esforço do trabalho volte a valer a pena.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Quando a Justiça parece falhar: o caso Henry Borel e o sentimento de impunidade

A decisão da Justiça envolvendo a morte do menino Henry Borel reacendeu no país um debate doloroso: até que ponto a interpretação jurídica pode se distanciar do sentimento de justiça da sociedade?

Por Adriano Lourenço



Enquanto o ex-vereador Jairinho segue enfrentando o peso de acusações severas e permanece marcado como principal responsável pela brutalidade do caso, a mãe da criança, Monique Medeiros, recebeu perdão judicial após condenação por homicídio culposo — quando não há intenção de matar. A decisão causou perplexidade em grande parte da população, especialmente pelo histórico de omissões apontadas durante as investigações.

A magistrada justificou a medida afirmando que Monique sofreu uma reação social “desproporcional e desmesurada”, além de mencionar fatores relacionados à discriminação de gênero. Porém, para muitos brasileiros, o ponto central jamais deixou de ser outro: a proteção de uma criança.

A maternidade começa muito antes do nascimento. Ainda na fase intrauterina, espera-se da mãe o primeiro elo de proteção, cuidado e segurança. A figura materna representa, culturalmente e biologicamente, o abrigo mais seguro para um filho. É justamente por isso que o caso provoca tamanha revolta social. Não apenas pela violência sofrida por Henry, mas pelo entendimento de que havia sinais, comportamentos e circunstâncias que deveriam ter levado a uma postura mais firme de proteção.

Quando uma mãe falha em proteger o próprio filho diante de suspeitas, agressões ou situações de risco, a sociedade inevitavelmente cobra responsabilidade. E essa cobrança aumenta quando o Judiciário aplica interpretações que acabam sendo vistas como excessivamente brandas.

O problema não está apenas neste caso específico. O sentimento de impunidade cresce no Brasil porque, repetidamente, a população assiste a decisões judiciais em que acusados de crimes graves deixam tribunais sem punições proporcionais à gravidade dos fatos. Em muitos episódios, questões técnicas, interpretações subjetivas ou benefícios legais acabam prevalecendo sobre aquilo que a sociedade entende como justiça moral.

Isso gera uma perigosa erosão da confiança pública no sistema judiciário. Afinal, quando crimes que chocam o país terminam com penas reduzidas, perdões judiciais ou liberdade precoce, instala-se a percepção de que existem dois pesos e duas medidas dentro da Justiça brasileira.

No caso Henry, a diferença entre a situação do padrasto e a da mãe reforçou ainda mais esse debate. Para parte da opinião pública, a responsabilização não deveria se limitar apenas a quem praticou diretamente as agressões, mas também alcançar quem tinha o dever legal e moral de impedir que elas acontecessem.

Ainda existe possibilidade de revisão? Sim. O Ministério Público pode recorrer de decisões judiciais quando entende que houve erro na aplicação da lei ou interpretação inadequada das provas. Em casos de grande repercussão, recursos em instâncias superiores podem modificar entendimentos anteriores, inclusive sobre benefícios concedidos aos réus.

Mas independentemente do desfecho jurídico futuro, o caso Henry Borel já deixou uma marca profunda no país: a sensação de que a infância continua vulnerável e de que, muitas vezes, a Justiça brasileira parece incapaz de responder à altura da dor das vítimas.

Henry não volta mais. E talvez seja justamente isso que torne cada decisão desse caso tão observada, tão criticada e tão difícil de ser aceita por milhões de brasileiros.