sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Envelhecer: um caminho para a plenitude ou um desafio para as famílias?


    Foto: arquivo pessoal

 Por Adriano Lourenço  14/11/25

Envelhecer pode representar felicidade e plenitude, mas também pode expor fragilidades e desafios sociais. Ser idoso pode significar aproveitar a vida ou lamentar a ausência de reconhecimento — tudo depende de como a sociedade, o poder público e a família enxergam essa etapa tão significativa da existência.

Em 2022, o Brasil alcançou 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, representando 15,8% da população nacional. Isso corresponde a um aumento de 56% em relação a 2010. O envelhecimento populacional é uma tendência mundial, e o Brasil não está fora desse movimento. Em 2025, essa realidade se intensifica e evidencia transformações profundas no cenário demográfico, bem como avanços e desafios relacionados às políticas públicas voltadas à saúde, assistência e inclusão social.

Mas fica a pergunta: estamos verdadeiramente preparados para cuidar da nossa população idosa?

O país possui hoje o sexto maior número de idosos no mundo, e essa mudança exige adaptações urgentes não apenas nos sistemas de saúde e previdência, mas também em toda a rede de proteção social. A Lei nº 8.842, de 4 de janeiro de 1994, institui a Política Nacional do Idoso, criando o Conselho Nacional do Idoso e estabelecendo diretrizes fundamentais.

O Art. 1º da Lei determina que a política deve assegurar os direitos sociais dos idosos e promover sua autonomia, integração e participação efetiva na sociedade. O Art. 2º define como idosa toda pessoa com 60 anos ou mais. Enquanto que o Art. 3º estabelece princípios essenciais, entre eles:

I – a família, a sociedade e o Estado têm o dever de garantir os direitos e a dignidade da pessoa idosa;
II – o envelhecimento é um processo que diz respeito a todos, devendo ser amplamente divulgado e compreendido;
III – o idoso não deve sofrer qualquer tipo de discriminação.

Somos, portanto, um país amparado por leis que asseguram cidadania, dignidade e proteção — especialmente para quem dedicou uma vida inteira ao trabalho e ao cuidado da família. No entanto, o distanciamento entre lei e realidade é evidente. Quem nunca ouviu relatos de maus-tratos praticados dentro da própria família? Quantos pais e avós não sofrem violência emocional, física ou abandono por aqueles a quem dedicaram tanto amor?

É fundamental lembrar que a pessoa idosa tem direito à educação, cultura, esporte, lazer, diversão, acesso a serviços e a bens que respeitem suas necessidades e limitações. Contudo, o que vemos na prática são idosos muitas vezes privados desses direitos. Na convivência familiar, muitos são isolados em pequenos quartos ou relegados ao descaso. Em instituições, não raro há abandono, falta de cuidado adequado e até apropriação indevida de aposentadorias.

No sistema de saúde, as dificuldades se multiplicam: enfermarias lotadas que mais parecem depósitos humanos, falta de acompanhante, processos judiciais para conseguir leito ou exames. E, quando finalmente conseguem uma decisão favorável, muitas vezes já é tarde demais.

A violência também marca profundamente essa população. Ameaças, agressões físicas, abuso psicológico, negligência, abandono, violência financeira, coação, abuso sexual e até homicídios fazem parte de um cenário alarmante. Entre 2020 e 2023, foram registradas mais de 408 mil denúncias de violência contra idosos no Brasil. Em 2024, os casos seguiram crescendo, sobretudo os de violência patrimonial, com a maioria ocorrendo dentro das próprias casas.

Estamos falhando com nossos idosos — como família, como sociedade e como Estado. Falhando com aqueles que dedicaram a vida ao trabalho, ao cuidado dos filhos e ao desenvolvimento do país. Idosos que, injustamente, são vistos como obsoletos ou improdutivos, mas que carregam sabedoria, experiência e histórias que deveriam ser valorizadas.

Vivemos um tempo em que muitos idosos enfrentam preconceito, desrespeito, exclusão e distância emocional de filhos e netos. Muitos são calados pelo grito, feridos pela impaciência e esquecidos pela rotina. Não pedem muito: querem carinho, presença, atenção. Querem ser tratados com a delicadeza e o respeito que merecem.

Afinal, como costumam dizer, o idoso é como uma criança — mas uma criança cheia de história, que merece ser tratada com amor, cuidado e dignidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário