quarta-feira, 19 de novembro de 2025

O Preço das Emendas e o Custo da Governabilidade

Em período pré-eleitoral, a aprovação de projetos no Congresso, como a isenção do Imposto de Renda até cinco mil reais, escancara a dependência do governo da liberação de emendas parlamentares.

   Foto arquivo pessoal

No coração da política brasileira, uma equação insiste em se repetir: a aprovação de projetos de interesse do governo no Congresso Nacional quase sempre está atrelada ao pagamento de emendas parlamentares. Essa prática, embora legalizada dentro do sistema orçamentário, levanta uma discussão cada vez mais urgente sobre os limites entre a governabilidade e a dependência de favores políticos.

As emendas, em sua essência, foram criadas para permitir que deputados e senadores direcionassem recursos às suas bases eleitorais, garantindo atenção a necessidades locais. Contudo, o que deveria ser instrumento de fortalecimento da representação popular acabou se tornando moeda de troca, convertendo o voto parlamentar em mercadoria e enfraquecendo o debate democrático.

Esse cenário se agrava em períodos pré-eleitorais. Deputados e senadores, cientes da importância das emendas para demonstrar resultados concretos em suas bases, intensificam a pressão sobre o governo, condicionando a aprovação de projetos estratégicos à liberação de recursos. A lógica eleitoral transforma o orçamento público em ferramenta de sobrevivência política, fazendo com que decisões de impacto nacional fiquem subordinadas a interesses imediatos de campanha.

Um exemplo recente desse jogo político foi a aprovação da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais. Embora o benefício atenda diretamente a milhões de brasileiros e tenha forte apelo popular em ano pré-eleitoral, sua tramitação também esteve marcada pelas negociações em torno das emendas parlamentares. O mérito da medida, que deveria ser discutido à luz de sua viabilidade fiscal e impacto social, acabou se misturando à lógica da barganha, reforçando a ideia de que até pautas de grande relevância nacional não avançam sem que a conta das emendas seja paga.

Quando a pauta do Congresso passa a ser definida pelo fluxo de liberação de recursos e não pela qualidade das propostas, o país corre o risco de perder de vista o interesse coletivo. A lógica se inverte: em vez de o parlamentar votar pensando no impacto do projeto sobre a sociedade, pesa mais o tamanho da emenda que será liberada para sua legenda ou reduto eleitoral.

Esse modelo vicia o processo político, cria uma cultura de dependência e afasta a discussão programática dos partidos. Mais grave ainda, naturaliza um tipo de “orçamento paralelo” que, na prática, enfraquece o controle social e dificulta a transparência. É inegável que qualquer governo precisa de base para aprovar seus projetos e garantir estabilidade. Mas quando a sustentação se ancora quase exclusivamente em pagamentos de emendas, a governabilidade deixa de ser um pacto em torno de ideias e se torna um simples acerto contábil.

A democracia brasileira precisa avançar além dessa lógica de balcão. O país exige que projetos sejam discutidos em seu mérito, com transparência, responsabilidade fiscal e compromisso com o futuro da nação — e não como resultado da soma de cifras que irrigam legendas políticas.

Enquanto a aprovação de leis continuar a depender de quanto se paga em emendas, estaremos sempre reféns de um sistema que privilegia interesses imediatos e fragiliza a construção de um Brasil mais justo e democrático.

Por Adriano Lourenço

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