Enquanto famílias perdem móveis, documentos e a esperança diante das enchentes na Paraíba, a população cobra ações permanentes do poder público e não apenas medidas emergenciais em períodos de calamidade.
Por Adriano Lourenço
As fortes chuvas que atingem a Paraíba nos últimos dias
transformaram ruas em rios, destruíram parte de rodovias, arrastaram
acostamentos e deixaram famílias inteiras em situação de desespero. Em diversas
cidades,
moradores convivem com o medo constante de perder aquilo que levaram anos para
construir. Casas invadidas pela água, móveis destruídos, documentos perdidos,
escolas fechadas e trabalhadores impedidos de chegar ao emprego fazem parte de
uma realidade que parece se repetir a cada inverno.
Em muitos pontos do estado, a força das águas revelou um
problema antigo: a fragilidade da infraestrutura urbana e a ausência de
planejamento eficiente para enfrentar períodos chuvosos. Não se trata apenas de
um fenômeno natural, mas também de uma crise social que escancara desigualdades
e abandono.
A ajuda emergencial chega. Colchões, cestas básicas e
abrigos são disponibilizados para parte das vítimas. Porém, para quem perdeu
praticamente tudo, essas ações representam apenas um alívio momentâneo. O
grande questionamento da população é outro: como recomeçar?
Como uma família poderá recuperar seus móveis? Como
reconstruir uma casa comprometida pela água? Como recuperar documentos,
eletrodomésticos e o pouco patrimônio conquistado com anos de trabalho? Essas
respostas raramente chegam com a mesma rapidez das promessas feitas em momentos
de crise.
Em João Pessoa, além das chuvas, outro problema chama
atenção: o
acúmulo de lixo nas ruas e em frente às residências. Em vários bairros,
entulhos e resíduos se acumulam próximo a galerias pluviais e bueiros.
A consequência é imediata: obstrução da
drenagem, aumento dos alagamentos e proliferação de doenças.
A falta de manutenção das galerias fluviais e pluviais
agrava ainda mais a situação. Quando o sistema não suporta o volume da água,
quem paga a conta é a população, especialmente os moradores das áreas mais
vulneráveis.
As chuvas também impactam diretamente a educação
e a economia.
Escolas suspendem aulas por infiltrações, alagamentos ou risco estrutural.
Trabalhadores enfrentam atrasos porque ruas e avenidas ficam praticamente
intransitáveis. O comércio sofre com a queda no movimento e empresários
convivem com a incerteza de abrir ou não seus estabelecimentos em dias de
temporal.
Em meio a esse cenário, cresce entre a população a sensação
de abandono político. Enquanto cidades enfrentam calamidade, parte da classe
política já se movimenta nos bastidores visando as eleições
de 2026. Articulações partidárias, alianças e disputas por espaço parecem
ocupar mais tempo do que os problemas enfrentados diariamente pelas pessoas
comuns.
Para muitos cidadãos, existe uma distância cada vez maior
entre quem governa e quem enfrenta a realidade das ruas. A impressão é de que
os impactos das chuvas atingem apenas o mundo dos trabalhadores, das mães e
pais de família, enquanto o debate político segue concentrado em interesses
eleitorais e manutenção de poder.
Mas especialistas e urbanistas apontam que existem caminhos
para mudar essa realidade. Entre as principais propostas defendidas estão:
·
ampliação e modernização das galerias
pluviais;
·
limpeza contínua de canais, rios e
bueiros;
·
fiscalização mais rigorosa sobre descarte
irregular de lixo;
·
criação de programas permanentes de
prevenção a desastres;
·
investimentos em habitação segura para
famílias em áreas de risco;
·
recuperação de encostas e áreas
degradadas;
·
implantação de sistemas modernos de
drenagem urbana;
·
construção de reservatórios para contenção
das águas da chuva;
·
campanhas educativas sobre descarte de
resíduos;
·
criação de um fundo estadual permanente
para reconstrução de casas atingidas por desastres naturais.
Outra medida considerada essencial é o fortalecimento da Defesa Civil, com
monitoramento climático mais eficiente e planos de evacuação preparados
antecipadamente para evitar tragédias maiores.
Além das obras estruturais, moradores também defendem mais
transparência na aplicação dos recursos públicos destinados à prevenção
de enchentes. A população quer saber quanto está sendo investido, onde o
dinheiro está sendo aplicado e quais obras realmente saíram do papel.
A cada novo período de chuva, a Paraíba revive cenas
semelhantes: famílias ilhadas, ruas destruídas, escolas fechadas e uma
população tentando sobreviver entre a esperança e o abandono. O desafio não é
apenas enfrentar a chuva, mas romper o ciclo histórico da falta de
planejamento.
Porque, quando a água baixa, permanece a pergunta entre os paraibanos. Até quando viveremos reconstruindo aquilo que
nunca deveria ter sido destruído?
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