quinta-feira, 7 de maio de 2026

Chuvas expõem abandono, medo e a sensação de um povo cercado pela própria sobrevivência

Enquanto famílias perdem móveis, documentos e a esperança diante das enchentes na Paraíba, a população cobra ações permanentes do poder público e não apenas medidas emergenciais em períodos de calamidade.

Por Adriano Lourenço


As fortes chuvas que atingem a Paraíba nos últimos dias transformaram ruas em rios, destruíram parte de rodovias, arrastaram acostamentos e deixaram famílias inteiras em situação de desespero. Em diversas cidades, moradores convivem com o medo constante de perder aquilo que levaram anos para construir. Casas invadidas pela água, móveis destruídos, documentos perdidos, escolas fechadas e trabalhadores impedidos de chegar ao emprego fazem parte de uma realidade que parece se repetir a cada inverno.

Em muitos pontos do estado, a força das águas revelou um problema antigo: a fragilidade da infraestrutura urbana e a ausência de planejamento eficiente para enfrentar períodos chuvosos. Não se trata apenas de um fenômeno natural, mas também de uma crise social que escancara desigualdades e abandono.

A ajuda emergencial chega. Colchões, cestas básicas e abrigos são disponibilizados para parte das vítimas. Porém, para quem perdeu praticamente tudo, essas ações representam apenas um alívio momentâneo. O grande questionamento da população é outro: como recomeçar?

Como uma família poderá recuperar seus móveis? Como reconstruir uma casa comprometida pela água? Como recuperar documentos, eletrodomésticos e o pouco patrimônio conquistado com anos de trabalho? Essas respostas raramente chegam com a mesma rapidez das promessas feitas em momentos de crise.

Em João Pessoa, além das chuvas, outro problema chama atenção: o acúmulo de lixo nas ruas e em frente às residências. Em vários bairros, entulhos e resíduos se acumulam próximo a galerias pluviais e bueiros.

A consequência é imediata: obstrução da drenagem, aumento dos alagamentos e proliferação de doenças.

A falta de manutenção das galerias fluviais e pluviais agrava ainda mais a situação. Quando o sistema não suporta o volume da água, quem paga a conta é a população, especialmente os moradores das áreas mais vulneráveis.

As chuvas também impactam diretamente a educação e a economia. Escolas suspendem aulas por infiltrações, alagamentos ou risco estrutural. Trabalhadores enfrentam atrasos porque ruas e avenidas ficam praticamente intransitáveis. O comércio sofre com a queda no movimento e empresários convivem com a incerteza de abrir ou não seus estabelecimentos em dias de temporal.

Em meio a esse cenário, cresce entre a população a sensação de abandono político. Enquanto cidades enfrentam calamidade, parte da classe política já se movimenta nos bastidores visando as eleições de 2026. Articulações partidárias, alianças e disputas por espaço parecem ocupar mais tempo do que os problemas enfrentados diariamente pelas pessoas comuns.

Para muitos cidadãos, existe uma distância cada vez maior entre quem governa e quem enfrenta a realidade das ruas. A impressão é de que os impactos das chuvas atingem apenas o mundo dos trabalhadores, das mães e pais de família, enquanto o debate político segue concentrado em interesses eleitorais e manutenção de poder.

Mas especialistas e urbanistas apontam que existem caminhos para mudar essa realidade. Entre as principais propostas defendidas estão:

·         ampliação e modernização das galerias pluviais;

·         limpeza contínua de canais, rios e bueiros;

·         fiscalização mais rigorosa sobre descarte irregular de lixo;

·         criação de programas permanentes de prevenção a desastres;

·         investimentos em habitação segura para famílias em áreas de risco;

·         recuperação de encostas e áreas degradadas;

·         implantação de sistemas modernos de drenagem urbana;

·         construção de reservatórios para contenção das águas da chuva;

·         campanhas educativas sobre descarte de resíduos;

·         criação de um fundo estadual permanente para reconstrução de casas atingidas por desastres naturais.

Outra medida considerada essencial é o fortalecimento da Defesa Civil, com monitoramento climático mais eficiente e planos de evacuação preparados antecipadamente para evitar tragédias maiores.

Além das obras estruturais, moradores também defendem mais transparência na aplicação dos recursos públicos destinados à prevenção de enchentes. A população quer saber quanto está sendo investido, onde o dinheiro está sendo aplicado e quais obras realmente saíram do papel.

A cada novo período de chuva, a Paraíba revive cenas semelhantes: famílias ilhadas, ruas destruídas, escolas fechadas e uma população tentando sobreviver entre a esperança e o abandono. O desafio não é apenas enfrentar a chuva, mas romper o ciclo histórico da falta de planejamento.

Porque, quando a água baixa, permanece a pergunta entre os paraibanos. Até quando viveremos reconstruindo aquilo que nunca deveria ter sido destruído?




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