Por Adriano Lourenço
O Brasil sempre foi reconhecido mundialmente por possuir um dos maiores programas de vacinação pública do planeta. Durante décadas, campanhas nacionais foram símbolo de eficiência, confiança popular e combate a doenças que antes matavam milhares de pessoas. A imagem do “Zé Gotinha” representava segurança. Vacinar era um ato coletivo de proteção.
Mas os tempos mudaram.
Nos últimos anos, uma sequência de notificações envolvendo reações adversas, suspensões de lotes de medicamentos e até interrupções preventivas de vacinas passou a gerar desconfiança em parte da população. O assunto voltou com força após a suspensão de lotes de medicamentos usados no tratamento de câncer de mama e hipertensão, determinada pela Anvisa, após identificação de desvios de qualidade nos produtos distribuídos no mercado brasileiro.
O episódio reacendeu uma pergunta delicada: até que ponto laboratórios, órgãos reguladores e o próprio sistema de fiscalização conseguem garantir segurança total à população?
No caso do medicamento Halaven, utilizado contra câncer de mama, a própria fabricante comunicou recolhimento voluntário após constatação de teor abaixo do especificado no princípio ativo. Já no caso da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan, notificações de eventos adversos graves provocaram investigações e suspensões preventivas em algumas localidades.
As autoridades sanitárias reforçam que ainda não existe comprovação científica de relação causal direta entre a vacina e mortes investigadas. Porém, para a população comum, a simples existência dessas notificações já é suficiente para gerar medo.
E esse medo cresce porque o brasileiro vive uma contradição: ao mesmo tempo em que depende do SUS, dos medicamentos públicos e das campanhas nacionais de vacinação, também vê aumentar a sensação de que o sistema de controle sanitário passou a atuar mais reagindo aos problemas do que prevenindo-os.
Décadas atrás, casos semelhantes dificilmente chegavam ao conhecimento popular. Isso não significa necessariamente que não existiam falhas, mas havia menos transparência, menos redes sociais e menor circulação de informações em tempo real. Hoje, qualquer suspeita viraliza em minutos, muitas vezes antes mesmo da conclusão técnica das investigações.
A consequência é perigosa.
De um lado, cresce a desconfiança contra vacinas, colocando em risco campanhas essenciais de imunização. De outro, famílias que dependem de medicamentos de alto custo passam a conviver com o temor de estarem utilizando produtos sob suspeita.
O debate precisa ser feito com responsabilidade. Questionar laboratórios, exigir rigor da Anvisa e cobrar transparência não significa defender negacionismo científico. Pelo contrário: uma sociedade madura precisa exigir fiscalização severa justamente para preservar a credibilidade da ciência.
A própria história recente mostra que suspensões sanitárias não são novidade. Em diferentes momentos, o Brasil já registrou recolhimento de implantes mamários ligados a tipos raros de câncer, interrupções temporárias em testes clínicos de vacinas e retirada de medicamentos do mercado por falhas na fabricação.
O problema é que hoje a velocidade da informação cria um ambiente de pânico permanente. Redes sociais transformam suspeitas em certezas instantâneas. Manchetes alarmistas geram cliques, mas também espalham medo. Ao mesmo tempo, governos e órgãos públicos frequentemente falham na comunicação clara com a sociedade.
Enquanto isso, inocentes seguem no meio do fogo cruzado.
Pacientes com câncer, idosos, crianças e pessoas vulneráveis dependem diariamente de medicamentos e vacinas para sobreviver. Quando um lote é suspenso ou uma reação grave é investigada, não se trata apenas de burocracia sanitária. Trata-se de vidas humanas.
O maior desafio do Brasil talvez não seja apenas produzir vacinas ou aprovar medicamentos. O verdadeiro desafio é reconstruir a confiança da população em um sistema que precisa ser transparente, rápido, técnico e, acima de tudo, responsável.
Porque quando a saúde pública perde credibilidade, o país inteiro adoece junto.
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