segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Farda nova, armas modernas e uma velha pergunta: quem está nas ruas para combater o crime na Paraíba?

 Déficit nas forças de segurança coloca em xeque o discurso eleitoral sobre investimentos e revela um problema que vai além das viaturas

Por Adriano Lourenço

Segurança pública foi um dos assuntos presentes no primeiro debate entre os candidatos ao Governo da Paraíba. E um dos discursos chamou atenção ao destacar uma polícia equipada, com armamentos, coletes balísticos, viaturas e fardamentos novos.

Tudo isso é importante.

Mas existe uma pergunta que não pode ficar de fora:

e o efetivo?

Porque não adianta ter viatura nova se não houver policiais suficientes para colocá-la nas ruas. Não adianta ter armamento moderno se faltam homens e mulheres para fazer o patrulhamento. E não adianta apresentar uma estrutura operacional cada vez melhor se o profissional que está na ponta continua enfrentando problemas de remuneração.

Um levantamento sobre a segurança pública mostra que a Paraíba tinha, em 2025, 10.309 policiais militares na ativa para um efetivo previsto de 18.935.

Isso significa apenas 54,4% do quadro previsto.

E o problema também aparece na Polícia Civil, responsável pela investigação e pela polícia judiciária.

São apontados 2.169 policiais para um quadro previsto de 6.300, aproximadamente 34,4% do efetivo.

E aqui está uma questão que precisa entrar de verdade na campanha eleitoral:

como combater o crime organizado com forças de segurança que ainda trabalham abaixo do efetivo previsto?

Porque a criminalidade também mudou.

A Paraíba convive com investigações envolvendo organizações criminosas e disputas territoriais entre grupos como o Comando Vermelho e a Okaida/Nova Okaida, com investigações apontando atuação em diferentes municípios paraibanos.

Não estamos falando apenas de pequenos grupos espalhados.

Estamos falando de organizações que disputam território, movimentam dinheiro, distribuem drogas e criam redes de atuação.

E para enfrentar isso, não basta equipamento.

É necessário efetivo, inteligência, investigação, tecnologia e valorização profissional.

O salário que não aparece na entrega da viatura

Durante um debate, é fácil mostrar aquilo que pode ser fotografado.

A viatura.

A arma.

O colete.

A farda.

Mas existe algo que não aparece nessas cerimônias:

o contracheque do policial.

Os dados do levantamento apontam uma remuneração média bruta de R$ 7.832,83 para os policiais militares paraibanos, enquanto a média nacional seria de R$ 10.329,61.

Entre soldados, a média indicada é de R$ 5.180,30.

E aqui precisamos fazer uma pergunta simples:

uma polícia pode ser considerada plenamente valorizada apenas porque está bem equipada?

É claro que não.

Equipamento é fundamental.

Mas quem veste a farda também precisa ser valorizado.

O policial enfrenta risco, trabalha em escalas, atende ocorrências violentas e muitas vezes precisa recorrer a serviços extraordinários para melhorar a renda.

Então, quando se fala em segurança pública, precisamos falar também de salário.

E quando chega a aposentadoria?

Existe ainda uma questão pouco discutida.

Depois de décadas de serviço, muitos policiais chegam à reserva e enfrentam uma redução significativa na renda, especialmente com a perda de parcelas vinculadas ao serviço ativo.

E não é raro que profissionais experientes retornem à atividade por meio da Guarda Militar da Reserva.

Não há problema algum em alguém querer continuar trabalhando.

A pergunta é outra:

isso é uma escolha ou, em alguns casos, uma necessidade para complementar a renda?

 


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