Déficit nas forças de segurança coloca em xeque o discurso eleitoral sobre investimentos e revela um problema que vai além das viaturas
Por Adriano Lourenço
Segurança pública foi um dos assuntos presentes no primeiro
debate entre os candidatos ao Governo da Paraíba. E um dos discursos chamou
atenção ao destacar uma polícia equipada, com armamentos, coletes balísticos,
viaturas e fardamentos novos.
Tudo isso é importante.
Mas existe uma pergunta que não pode ficar de fora:
e o efetivo?
Porque não adianta ter viatura nova se não houver policiais
suficientes para colocá-la nas ruas. Não adianta ter armamento moderno se
faltam homens e mulheres para fazer o patrulhamento. E não adianta apresentar
uma estrutura operacional cada vez melhor se o profissional que está na ponta
continua enfrentando problemas de remuneração.
Um levantamento sobre a segurança pública mostra que a
Paraíba tinha, em 2025, 10.309
policiais militares na ativa para um efetivo previsto de 18.935.
Isso significa apenas 54,4% do quadro previsto.
E o problema também aparece na Polícia Civil, responsável
pela investigação e pela polícia judiciária.
São apontados 2.169
policiais para um quadro previsto de 6.300, aproximadamente 34,4%
do efetivo.
E aqui está uma questão que precisa entrar de verdade na
campanha eleitoral:
como combater o crime organizado com forças de segurança
que ainda trabalham abaixo do efetivo previsto?
Porque a criminalidade também mudou.
A Paraíba convive com investigações envolvendo organizações
criminosas e disputas territoriais entre grupos como o Comando
Vermelho e a Okaida/Nova Okaida, com investigações apontando atuação em
diferentes municípios paraibanos.
Não estamos falando apenas de pequenos grupos espalhados.
Estamos falando de organizações que disputam território,
movimentam dinheiro, distribuem drogas e criam redes de atuação.
E para enfrentar isso, não basta equipamento.
É necessário efetivo, inteligência, investigação,
tecnologia e valorização profissional.
O salário que não aparece na entrega da viatura
Durante um debate, é fácil mostrar aquilo que pode ser
fotografado.
A viatura.
A arma.
O colete.
A farda.
Mas existe algo que não aparece nessas cerimônias:
o contracheque do policial.
Os dados do levantamento apontam uma remuneração média bruta
de R$
7.832,83 para os policiais militares paraibanos, enquanto a média nacional
seria de R$ 10.329,61.
Entre soldados, a média indicada é de R$ 5.180,30.
E aqui precisamos fazer uma pergunta simples:
uma polícia pode ser considerada plenamente valorizada
apenas porque está bem equipada?
É claro que não.
Equipamento é fundamental.
Mas quem veste a farda também precisa ser valorizado.
O policial enfrenta risco, trabalha em escalas, atende
ocorrências violentas e muitas vezes precisa recorrer a serviços
extraordinários para melhorar a renda.
Então, quando se fala em segurança pública, precisamos falar
também de salário.
E quando chega a aposentadoria?
Existe ainda uma questão pouco discutida.
Depois de décadas de serviço, muitos policiais chegam à
reserva e enfrentam uma redução significativa na renda, especialmente com a
perda de parcelas vinculadas ao serviço ativo.
E não é raro que profissionais experientes retornem à
atividade por meio da Guarda
Militar da Reserva.
Não há problema algum em alguém querer continuar
trabalhando.
A pergunta é outra:
isso é uma escolha ou, em alguns casos, uma necessidade
para complementar a renda?
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