Enquanto novos escândalos abalam a instituição, a imagem mostra ministros em evidente descontração e risadas — como se nada estivesse acontecendo. Do lado de fora, a sociedade observa calada: a democracia parece ser a única a levar a sério o que está em jogo. São os mesmos que julgam e decidem rindo entre si, enquanto o povo permanece sem respostas. A cena diz tudo: há quem não se importe com o que a nação sente.
Por Adriano Lourenço
A imagem ganha relevo pelo contexto imediato: vem à tona horas depois de novas revelações sobre condutas dentro da própria Corte. O contraste entre a gravidade do que está sendo apurado e o clima leve e desinibido entre os responsáveis por julgar e sentenciar chama atenção. São as mesmas autoridades que detêm o poder de decidir, aplicar a lei e zelar pela ordem institucional — e que, ao mesmo tempo, são também avaliadas por seus próprios atos.
Não se trata de censurar sorrisos ou convívio entre profissionais. Trata-se de adequação institucional. Num momento em que a instituição é alvo de questionamentos públicos sobre imparcialidade, relações externas e suposto favorecimento, a imagem transmite uma mensagem que a sociedade interpreta com estranhamento: como compatibilizar a seriedade exigida pelas funções com aparente tranquilidade diante de denúncias graves?
O Supremo Tribunal Federal deveria funcionar como baluarte da Constituição, garantindo neutralidade e equilíbrio entre os poderes. No entanto, revelações sucessivas têm colocado a instituição sob escrutínio. Quando aqueles que deveriam julgar com isenção aparecem em círculo fechado, em clima de total confiança, a pergunta que surge é: até que ponto as decisões atendem ao interesse público e não a acordos firmados fora dos autos?
A sociedade tem o direito de cobrar transparência, distância entre as partes e lisura nos processos. Quando quem julga e quem deveria ser julgado confundem-se no mesmo grupo, em ambiente de convívio próximo, a separação entre os poderes parece enfraquecida. Sem que haja clareza sobre o que se discute em encontros reservados, sem atas e sem registro público, a desconfiança cresce.
Os brasileiros conhecem de sobra o roteiro. Quando os mesmos que aplicam as regras parecem estar também isentos delas, o resultado costuma ser previsível: decisões que nem sempre coincidem com o que a Constituição manda, mas que parecem atender a interesses que não são os da maioria. A imagem, por si só, não prova nada — mas sintetiza o que a população já percebe: há um distanciamento entre o que se espera do cargo e o que se mostra na prática.
A democracia não se abala de uma hora para outra. Ela se desgasta quando a confiança se esvai pouco a pouco. E confiança não se impõe: se constrói com conduta compatível, com respeito à sociedade e com a consciência de que o poder emana do povo — e não o contrário. Enquanto as respostas não vierem de forma clara e rigorosa, a dúvida permanecerá: a quem serve, de fato, a mais alta Corte do país?
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