quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Lula muda o discurso, mas o segundo turno começa com uma conta difícil

 Primeiro turno expõe perda de espaço regional, avanço de Flávio e obriga o governo a rever discurso, alianças e comunicação

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 colocou Lula diante de uma situação que, durante boa parte da campanha, parecia pouco provável: o presidente terminou atrás de Flávio Bolsonaro.

Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula ficou com 45,16%. A diferença foi de pouco mais de 2,2 milhões de votos. Não é uma distância que encerra uma eleição, mas é suficiente para mudar completamente a estratégia das duas campanhas.

E talvez o dado que mais mereça atenção esteja fora dos percentuais dos dois candidatos: 33,47 milhões de eleitores não compareceram às urnas. A abstenção chegou a 21,08%.

É aí que começa uma das principais perguntas do segundo turno: quem são esses eleitores e o que poderá levá-los novamente às urnas?

O Nordeste continua sendo o principal território eleitoral de Lula. O presidente venceu nos nove estados da região e alcançou seus melhores percentuais no Piauí, com quase 71%, seguido por Bahia, Maranhão, Pernambuco, Ceará, Sergipe, Paraíba e Rio Grande do Norte.

Mas a fotografia nacional mudou.

Flávio venceu em 15 estados e no Distrito Federal. Teve resultados expressivos em Roraima, Rondônia, Santa Catarina, Mato Grosso, Acre, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. Em Minas Gerais, outro estado decisivo, também terminou à frente.

São Paulo chama atenção pelo tamanho do eleitorado. Flávio ultrapassou 12,9 milhões de votos no estado, enquanto Lula passou de 9,5 milhões. Minas Gerais também deu vantagem ao candidato do PL, assim como Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul.

O mapa mostra, portanto, que a disputa deixou de ser apenas uma questão de Nordeste contra o restante do país. Lula ainda possui uma vantagem importante em seu principal reduto, mas Flávio conseguiu transformar a direita em uma força eleitoral nacional.

E é justamente nesse cenário que Lula começa a mudar o tom.

O discurso sobre segurança pública ganhou espaço. O presidente passou a falar com maior ênfase em endurecimento contra criminosos, proteção do trabalhador, segurança e fortalecimento do sistema penitenciário.

A mudança chama atenção porque segurança pública esteve entre os temas mais explorados pela direita durante a campanha.

É legítimo perguntar se essa nova ênfase representa uma mudança programática ou também uma tentativa de responder a uma preocupação que apareceu nas urnas. A resposta, entretanto, caberá ao eleitor observar nos próximos dias: discurso de campanha é uma coisa; política pública concreta é outra.

O próprio Lula também fez uma autocrítica sobre a campanha. Depois do resultado, afirmou que foi a campanha menos organizada de sua trajetória desde 1989.

A declaração revela que o problema, pelo menos na avaliação do próprio presidente, não estaria somente nos adversários. Haveria também uma questão interna de comunicação, organização e estratégia.

E esse ponto ganha importância porque o governo tem uma dificuldade adicional: explicar aquilo que considera ter realizado e, ao mesmo tempo, apresentar uma proposta capaz de convencer quem ainda não decidiu.

Pesquisas realizadas antes do primeiro turno já mostravam uma divisão clara. Lula apresentava vantagem entre eleitores de menor renda, menor escolaridade, no Nordeste e entre católicos. Flávio tinha desempenho melhor entre eleitores de renda mais alta, no Sul e entre evangélicos.

Mas eleição não é fotografia de pesquisa. É urna.

E a urna mostrou que Flávio conseguiu avançar.

Outro dado que chama atenção está nas seções eleitorais instaladas em estabelecimentos penais. Presos provisórios têm direito ao voto porque não possuem condenação criminal definitiva. Os condenados definitivamente não votam.

Nessas seções específicas, Lula teve 72,98% dos votos válidos, contra 23,15% de Flávio. O número chama atenção, mas precisa ser tratado corretamente: não significa que toda a população carcerária brasileira tenha votado em Lula. Trata-se dos eleitores aptos a votar nas seções prisionais.

A pergunta seguinte é política: como cada candidato vai conversar com quem não votou?

A abstenção não pertence a Lula nem a Flávio. São milhões de brasileiros que, por diferentes motivos, não compareceram às urnas. Entre eles estão pessoas desinteressadas, impedidas de votar, que enfrentaram dificuldades para chegar ao local de votação ou simplesmente não se sentiram representadas.

Para Lula, recuperar parte desse eleitorado pode ser importante porque sua votação ficou concentrada em segmentos nos quais a abstenção historicamente pode pesar mais. Para Flávio, o desafio é manter a mobilização que o colocou na frente e, ao mesmo tempo, ampliar sua votação para além do eleitorado que já se identifica com a direita.

Há ainda outra disputa: os votos dos candidatos que ficaram pelo caminho.

Mais de nove milhões de votos foram destinados a outros nomes no primeiro turno. São eleitores que agora terão de escolher entre Lula e Flávio, votar em branco, anular ou, novamente, não comparecer.

E a política partidária já começou a se movimentar.

Flávio recebeu declarações de apoio de União Brasil, PP, Novo, Republicanos e Podemos, além dos apoios anunciados por Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Mas essas adesões não significam automaticamente que todos os eleitores dessas legendas seguirão a orientação nacional. Em vários estados, os interesses locais são diferentes.

Lula, por sua vez, precisa ampliar sua capacidade de articulação e buscar setores de partidos que não estão integralmente fechados com Flávio. PSD e MDB aparecem como espaços importantes dessa disputa, embora suas decisões e posicionamentos variem conforme o estado e a liderança regional.

No segundo turno, portanto, não basta repetir o primeiro.

Lula precisa explicar por que pretende continuar governando e apresentar o que pretende fazer daqui para frente. Flávio precisa transformar a vantagem eleitoral em uma mensagem capaz de chegar aos eleitores que ainda não estão definitivamente com a direita.

A disputa também deve passar pela economia, segurança, emprego, custo de vida, saúde, corrupção, relação com o Congresso e instituições.

E existe um eleitor que talvez seja o mais importante de todos: aquele que não está apaixonado por nenhum dos dois.

Esse eleitor pode não querer escolher entre passado e passado. Pode querer saber o que cada candidato fará no futuro.

O segundo turno começa, portanto, com uma diferença pequena entre os dois candidatos, mas com desafios muito diferentes.

Lula precisa recuperar terreno onde perdeu votos e ampliar alianças.

Flávio precisa consolidar a liderança e convencer além de sua base tradicional.

E os dois terão de disputar não apenas o voto do adversário, mas a atenção de milhões de brasileiros que, no primeiro turno, simplesmente decidiram não ir às urnas.

No dia 25 de outubro, a escolha será novamente do eleitor.

E desta vez, os números do primeiro turno já deixaram um recado claro: nenhuma candidatura pode tratar como garantido o voto que ainda não está na urna.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Conspiração ou traição? O que aconteceu com Cícero Lucena nas eleições para o Governo da Paraíba?

Resultado das urnas abre discussão sobre estratégia de campanha, atuação do grupo político, postura de Léo Bezerra e o futuro da família Lucena


Por Adriano Lourenço

A eleição acabou. O segundo turno não veio. E a pergunta que ficou, principalmente depois do resultado em João Pessoa, é direta: o que aconteceu com Cícero Lucena?

Conspiração? Traição política? Erro de estratégia? Ou simplesmente uma eleição em que as urnas disseram algo diferente daquilo que parte do ambiente político esperava?

Cícero terminou o primeiro turno em terceiro lugar, com 11,6% dos votos válidos, atrás de Efraim Filho, que obteve 24,18%, e de Lucas Ribeiro, reeleito governador com 64,30%.

O resultado contrariou a expectativa de quem ainda trabalhava com a possibilidade de uma segunda rodada entre os principais candidatos. Mas as pesquisas da reta final já apresentavam um cenário menos favorável a Cícero. Na Quest realizada nos dias 2 e 3 de outubro, Lucas aparecia com 52%, Efraim com 19% e Cícero com 13% das intenções de voto.

Ainda assim, foi João Pessoa que produziu uma das imagens mais fortes dessa eleição.

Cícero foi prefeito da Capital, deixou a prefeitura para disputar o Governo do Estado e construiu durante anos uma rede política na cidade. Mesmo assim, não conseguiu transformar esse histórico em liderança eleitoral na própria Capital.

E aqui começa uma pergunta que merece ser feita.

Onde estavam os votos da estrutura política construída durante os anos de prefeitura?

Onde estavam os vereadores que declararam apoio ao ex-prefeito?

E aqueles votos que, durante a campanha, eram tratados como parte da estrutura capaz de levar Cícero ao segundo turno?

Não se pode transformar essas perguntas em acusação sem provas. Mas também não se pode ignorar o resultado.

A política trabalha com números. E os números desta vez foram desfavoráveis a Cícero.

Mas existe outra pergunta que precisa entrar nessa análise: e o marqueteiro?

Será que a estratégia de comunicação adotada pela campanha foi adequada ao momento eleitoral?

Essa não é uma pergunta sobre culpa. É uma pergunta sobre estratégia.

Uma candidatura com a trajetória de Cícero Lucena precisava apresentar ao eleitor uma razão clara para escolhê-lo naquele momento. Experiência, cargos ocupados e história política fazem parte de uma biografia, mas não necessariamente funcionam como mensagem eleitoral.

Durante a campanha, Cícero repetiu argumentos relacionados à experiência, à gestão e à sua trajetória política. A pergunta é se essa comunicação conseguiu criar uma identidade eleitoral capaz de diferenciá-lo dos adversários.

Porque o eleitor não vota em currículo.

O eleitor vota em uma proposta, em uma identificação, em uma expectativa ou, muitas vezes, naquilo que entende ser melhor para o momento.

E pode existir aí um dos pontos que a campanha precisará avaliar.

Será que o discurso ficou repetitivo?

Será que faltou uma mensagem nova na reta final?

Será que a comunicação não conseguiu transformar a experiência de Cícero em uma proposta capaz de mobilizar o eleitor?

Ou será que, nos últimos dias, aconteceu aquilo que ninguém consegue medir completamente?

O eleitor chegou à urna e pensou: “É melhor mudar de lado porque a oferta está sendo melhor.”

Essa é uma possibilidade política, não uma conclusão.

E a força dessa hipótese está justamente no resultado.

Do outro lado, Efraim Filho conseguiu terminar em segundo lugar. Durante os debates, apresentou propostas e adotou, em determinados momentos, uma comunicação mais contida. Enquanto isso, Cícero carregava o peso de uma trajetória longa na política paraibana.

A eleição mostrou que experiência e estrutura não significam transferência automática de votos.

E existe ainda outro personagem nessa história: Léo Bezerra.

Em junho, o prefeito de João Pessoa dizia publicamente que apoiaria Cícero e que sua base estaria alinhada ao projeto do ex-prefeito. Na ocasião, chegou a afirmar: “campanha de Cícero é a campanha de Léo”.

Mas a política mudou de direção.

Em agosto, Léo Bezerra anunciou, juntamente com sua base de vereadores, apoio a Nabor Wanderley para o Senado. A articulação foi apresentada publicamente também como parte de um entendimento relacionado ao projeto de reeleição do prefeito em 2028.

Cícero, na época, adotou tom conciliador e disse respeitar a independência política de Léo.

Portanto, mais do que falar em “silêncio” de Léo, existe um fato político concreto: o apoio que começou alinhado a Cícero sofreu uma mudança de rota durante a própria eleição.

E isso merece ser analisado.

Porque Léo não estava sozinho.

Havia vereadores, lideranças comunitárias e integrantes da base municipal envolvidos na campanha. Em setembro, por exemplo, eventos do chamado Movimento 15 foram organizados por vereadores e lideranças que declaravam apoio a Cícero e ao projeto político apresentado ao eleitor.

Mas também houve mudança de posição dentro da Câmara.

O vereador Guga Moov Jampa, por exemplo, deixou o grupo de Cícero e declarou apoio a Lucas Ribeiro. Léo Bezerra, ao comentar a decisão, disse que respeitava a escolha do vereador e que havia tentado mantê-lo ao seu lado.

E aí aparece uma questão ainda mais delicada.

Durante uma eleição estadual, vereadores que também disputam seus próprios projetos eleitorais podem dividir sua atenção entre a candidatura majoritária e suas próprias campanhas para deputado estadual ou federal.

Isso não significa afirmar que abandonaram Cícero.

Mas significa perguntar: quanto da estrutura política estava realmente dedicada à candidatura ao Governo e quanto estava concentrada na sobrevivência eleitoral de cada liderança?

Essa pergunta precisa ser respondida pelos próprios atores políticos.

Porque, na política, apoiar é uma coisa.

Transferir votos é outra.

E garantir que uma estrutura política trabalhe efetivamente por uma candidatura é outra completamente diferente.

Talvez esteja aí parte da explicação para o que aconteceu.

Ou talvez não.

Mas a urna deixou uma informação impossível de ignorar: a força política de Cícero em João Pessoa não se converteu no resultado que sua candidatura precisava.

E isso também atinge a família.

Mersinho Lucena, filho de Cícero, não conseguiu renovar o mandato de deputado federal e terminou como suplente.

Para uma família que possui uma trajetória extensa na política paraibana, o resultado representa um novo momento.

E a pergunta agora é: o que vem depois?

Cícero ficará fora de um mandato eletivo.

Mersinho também não estará, neste momento, entre os titulares da bancada federal.

Léo Bezerra permanece com a Prefeitura de João Pessoa e já tem 2028 no horizonte.

E, a partir daí, a política começa novamente a fazer aquilo que sabe fazer melhor: conversar nos bastidores.

Será que os Ribeiro e os Bezerra estarão juntos?

Será que haverá uma nova composição?

Não há, neste momento, elementos públicos suficientes para afirmar que exista algum acordo secreto entre esses grupos. O que existe são movimentos políticos registrados, mudanças de apoio e interesses eleitorais que naturalmente passam a mirar 2028.

E 2028 pode trazer uma disputa completamente diferente.

Novos nomes podem aparecer.

Parlamentares podem entrar na disputa.

Grupos que hoje estão juntos podem se separar.

Grupos que hoje estão separados podem voltar a conversar.

É cedo para dizer quem estará de cada lado.

Mas não é cedo para observar os movimentos.

A eleição de 2026 deixou uma lição importante para todos os grupos políticos da Paraíba: pesquisa não é urna, avenida cheia não é voto e apoio declarado não significa necessariamente transferência de eleitor.

Cícero tinha história.

Tinha experiência.

Tinha estrutura.

Tinha aliados.

Tinha uma campanha.

Mas tinha também um desafio: convencer o eleitor de que toda essa trajetória representava o melhor caminho naquele momento.

E a urna respondeu.

Agora caberá ao próprio grupo analisar onde a estratégia funcionou, onde não funcionou e, principalmente, se o problema esteve na mensagem, na estrutura política, na articulação ou na combinação de todos esses fatores.

Conspiração ou traição?

Talvez a resposta não esteja em Judas.

Talvez esteja na urna.

Porque, entre o palanque e o voto, existe uma distância que nenhuma estrutura política consegue controlar completamente.

E foi exatamente nessa distância que Cícero Lucena perdeu a eleição.