segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Racismo Ambiental: Quando o Brasil Falha com Seus Próprios Cidadãos


O Brasil convive, há décadas, com uma desigualdade que não se limita à renda, ao acesso a serviços básicos ou às oportunidades. Ela também se expressa na forma como determinados grupos sociais são expostos de maneira sistemática aos maiores riscos ambientais do país. É nesse cenário que o racismo ambiental deixa de ser apenas um conceito acadêmico e se revela como uma realidade cotidiana, ainda pouco reconhecida pelo poder público e pela sociedade.

Quando se observa quem vive sem saneamento básico, quem mora perto de lixões, quem respira o ar mais poluído ou quem enfrenta com mais frequência enchentes, deslizamentos e contaminação da água, a resposta se repete: são, majoritariamente, populações negras, indígenas, ribeirinhas, quilombolas e periféricas.

Não se trata de coincidência geográfica. Trata-se de um padrão histórico de exclusão, no qual raça, território e pobreza se entrelaçam para determinar quem sofre mais e quem é sistematicamente deixado para trás.

Os povos indígenas que têm seus rios contaminados pelo garimpo, as comunidades quilombolas que aguardam há anos por regularização fundiária, os moradores da periferia que vivem sobre valas e esgoto — todos enfrentam não apenas desigualdade ambiental, mas o reflexo de políticas que os ignoram. Este é o ponto central: o racismo ambiental não nasce apenas da poluição em si, mas da ausência de decisão, da falta de prioridade e da naturalização de que determinados grupos podem esperar um pouco mais, sofrer um pouco mais, perder um pouco mais.

Essa crise ambiental não é neutra. Ela tem cor, endereço e classe social. E enquanto esse reconhecimento não for traduzido em políticas públicas eficientes, participação comunitária, fiscalização adequada e ordenamento urbano justo, continuará prevalecendo um modelo em que poucos se protegem e muitos pagam a conta — com sua saúde, sua dignidade e, muitas vezes, sua vida.

Estamos diretamente ligados a uma crítica inevitável, porém, tratada com desdenho pelo sistema político que não enxerga a pauta socioambiental deveria, deixando sempre para segundo plano e lembrada apenas em discursos de campanha ou em situações de crise. Governos se sucedem prometendo avanços, mas a ausência de políticas públicas consistentes revela o contrário. Regularizações fundiárias são empurradas indefinidamente, investimentos em saneamento ficam aquém do necessário, fiscalizações ambientais são fragilizadas e populações vulneráveis seguem relegadas a territórios de risco. A política, que deveria proteger, torna-se cúmplice da desigualdade quando ignora aquilo que está diante de todos.

Da mesma forma, é preciso reconhecer que parte das entidades defensoras dos direitos humanos também falha em seu compromisso. Muitas concentram esforços em agendas específicas, mas tratam o racismo ambiental como tema periférico, quando não o ignoram completamente. Há uma lacuna evidente entre discursos bem elaborados e atuação concreta nas comunidades que mais sofrem. Em muitos casos, a defesa de direitos humanos se torna restrita a relatórios, seminários e comunicados públicos, enquanto populações inteiras seguem expostas a riscos ambientais graves e contínuos.

Em meio à precariedade e ao abandono, muitas das pessoas que vivem em ambientes insalubres desenvolvem uma confiança quase forçada nas promessas políticas que surgem a cada ciclo eleitoral. Não por ingenuidade, mas pela ausência de alternativas reais. Quando o Estado se faz presente apenas às vésperas da eleição, o discurso sedutor — ainda que vago e repetitivo — torna-se a única oferta de esperança para quem convive diariamente com esgoto a céu aberto, falta de água tratada, moradias frágeis e riscos constantes. É nesse vácuo de políticas públicas que promessas superficiais ganham peso e se transformam em moeda de troca emocional para quem só deseja um mínimo de dignidade.

Nesse contexto, a relação entre eleitores vulneráveis e candidatos oportunistas se torna ainda mais desigual. Lideranças políticas, cientes da fragilidade social dessas comunidades, exploram essa carência com discursos populistas, visitas pontuais e compromissos que raramente se concretizam. Em troca de expectativas manipuladas — e muitas vezes de benefícios imediatos, porém insuficientes — parte dessa população entrega seu voto acreditando que, desta vez, algo mudará. Mas, passado o período eleitoral, o retorno ao silêncio institucional reforça um ciclo cruel: a confiança depositada se desmancha, apenas para ser reconstruída na eleição seguinte, alimentada pela ausência de alternativas e pela omissão histórica do poder público.

O Brasil só avançará quando reconhecer que a crise ambiental não é neutra: ela tem cor, endereço e classe social. E enquanto o sistema político e as instituições que deveriam proteger os cidadãos continuarem tratando o tema como incômodo ou secundário, continuaremos repetindo um modelo injusto, onde poucos são protegidos e muitos pagam a conta — com sua saúde, sua dignidade e, frequentemente, sua vida.

Assumir esse debate não divide o país. Pelo contrário: é condição para construir um Brasil que leve a sério o direito ambiental e o direito humano fundamental a uma vida digna. Combater o racismo ambiental é, antes de tudo, exigir responsabilidade daqueles que dizem nos representar — na política, nas instituições e na sociedade civil.

Editorial da Semana - by Adriano Lourenço

 

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