O Brasil convive, há décadas, com uma desigualdade que não se limita à renda, ao acesso a serviços básicos ou às oportunidades. Ela também se expressa na forma como determinados grupos sociais são expostos de maneira sistemática aos maiores riscos ambientais do país. É nesse cenário que o racismo ambiental deixa de ser apenas um conceito acadêmico e se revela como uma realidade cotidiana, ainda pouco reconhecida pelo poder público e pela sociedade.
Quando se observa quem vive sem saneamento básico, quem mora perto de lixões, quem respira o ar mais poluído ou quem enfrenta com mais frequência enchentes, deslizamentos e contaminação da água, a resposta se repete: são, majoritariamente, populações negras, indígenas, ribeirinhas, quilombolas e periféricas.
Não se trata de coincidência geográfica. Trata-se de um padrão
histórico de exclusão, no qual raça, território e pobreza se entrelaçam para
determinar quem sofre mais e quem é sistematicamente deixado para trás.
Os povos
indígenas que têm seus rios contaminados pelo garimpo, as comunidades
quilombolas que aguardam há anos por regularização fundiária, os moradores da
periferia que vivem sobre valas e esgoto — todos enfrentam não apenas
desigualdade ambiental, mas o reflexo de políticas que os ignoram. Este é o
ponto central: o racismo ambiental não nasce apenas da poluição em si, mas da
ausência de decisão, da falta de prioridade e da naturalização de que
determinados grupos podem esperar um pouco mais, sofrer um pouco mais, perder
um pouco mais.
Essa crise
ambiental não é neutra. Ela tem cor, endereço e classe social. E enquanto esse
reconhecimento não for traduzido em políticas públicas eficientes, participação
comunitária, fiscalização adequada e ordenamento urbano justo, continuará
prevalecendo um modelo em que poucos se protegem e muitos pagam a conta — com
sua saúde, sua dignidade e, muitas vezes, sua vida.
Estamos
diretamente ligados a uma crítica inevitável, porém, tratada com desdenho pelo
sistema político que não enxerga a pauta socioambiental deveria, deixando
sempre para segundo plano e lembrada apenas em discursos de campanha ou em
situações de crise. Governos se sucedem prometendo avanços, mas a ausência de
políticas públicas consistentes revela o contrário. Regularizações fundiárias
são empurradas indefinidamente, investimentos em saneamento ficam aquém do
necessário, fiscalizações ambientais são fragilizadas e populações vulneráveis
seguem relegadas a territórios de risco. A política, que deveria proteger,
torna-se cúmplice da desigualdade quando ignora aquilo que está diante de
todos.
Da mesma
forma, é preciso reconhecer que parte das entidades defensoras dos direitos
humanos também falha em seu compromisso. Muitas concentram esforços em agendas
específicas, mas tratam o racismo ambiental como tema periférico, quando não o
ignoram completamente. Há uma lacuna evidente entre discursos bem elaborados e
atuação concreta nas comunidades que mais sofrem. Em muitos casos, a defesa de
direitos humanos se torna restrita a relatórios, seminários e comunicados
públicos, enquanto populações inteiras seguem expostas a riscos ambientais
graves e contínuos.
Em meio à
precariedade e ao abandono, muitas das pessoas que vivem em ambientes
insalubres desenvolvem uma confiança quase forçada nas promessas políticas que
surgem a cada ciclo eleitoral. Não por ingenuidade, mas pela ausência de
alternativas reais. Quando o Estado se faz presente apenas às vésperas da
eleição, o discurso sedutor — ainda que vago e repetitivo — torna-se a única
oferta de esperança para quem convive diariamente com esgoto a céu aberto,
falta de água tratada, moradias frágeis e riscos constantes. É nesse vácuo de
políticas públicas que promessas superficiais ganham peso e se transformam em
moeda de troca emocional para quem só deseja um mínimo de dignidade.
Nesse
contexto, a relação entre eleitores vulneráveis e candidatos oportunistas se
torna ainda mais desigual. Lideranças políticas, cientes da fragilidade social
dessas comunidades, exploram essa carência com discursos populistas, visitas
pontuais e compromissos que raramente se concretizam. Em troca de expectativas
manipuladas — e muitas vezes de benefícios imediatos, porém insuficientes —
parte dessa população entrega seu voto acreditando que, desta vez, algo mudará.
Mas, passado o período eleitoral, o retorno ao silêncio institucional reforça
um ciclo cruel: a confiança depositada se desmancha, apenas para ser
reconstruída na eleição seguinte, alimentada pela ausência de alternativas e
pela omissão histórica do poder público.
O Brasil só
avançará quando reconhecer que a crise ambiental não é neutra: ela tem cor,
endereço e classe social. E enquanto o sistema político e as instituições que
deveriam proteger os cidadãos continuarem tratando o tema como incômodo ou
secundário, continuaremos repetindo um modelo injusto, onde poucos são
protegidos e muitos pagam a conta — com sua saúde, sua dignidade e,
frequentemente, sua vida.
Assumir esse
debate não divide o país. Pelo contrário: é condição para construir um Brasil
que leve a sério o direito ambiental e o direito humano fundamental a uma vida
digna. Combater o racismo ambiental é, antes de tudo, exigir responsabilidade
daqueles que dizem nos representar — na política, nas instituições e na
sociedade civil.
Editorial da Semana - by Adriano Lourenço

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