O que se diz no palanque passa rápido. O que fica na memória da sociedade é o que realmente importa — e nem sempre é o que se gostaria. Veja as contradições, as promessas que mudaram de rumo e as perguntas sem resposta: o que Lula diz, o que faz e o que o Brasil não esquece.
Por Adriano Lourenço
Contradições que marcaram o mandato
Tem político que muda de opinião. Tem político que muda de discurso. E tem discurso que, mesmo depois de terminado, continua circulando — às vezes contra quem o pronunciou. Luiz Inácio Lula da Silva conhece bem essa realidade. Nos últimos anos, algumas de suas falas passaram a ser lembradas não pelo que diziam, mas pela distância entre o prometido e o praticado.
O exemplo mais evidente foi a indicação ao Supremo Tribunal Federal. Durante a campanha de 2022, Lula afirmou: "Colocar um amigo na Suprema Corte é um retrocesso. A escolha tem que ser por currículo, não por amizade". Em junho de 2023, indicou Cristiano Zanin — seu advogado pessoal durante toda a Lava Jato, cuja esposa é afilhada do presidente. Questionado, disse: "O Zanin não era amigo, era meu advogado". A distinção não convenceu parte da sociedade, que viu critérios pessoais sobrepujarem a independência prometida.
A mesma inversão aconteceu em outras áreas: a taxa das blusinhas foi criada e depois revogada; nas apostas esportivas, o governo regulamentou e arrecadou bilhões, agora Lula defende a proibição total; na segurança, primeiro atribuiu crimes à falta de oportunidade e depois passou a defender medidas mais duras, sem explicar o que mudou de forma concreta.
A polêmica de Nossa Senhora Aparecida
Na reta final das eleições, circulou a informação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A acusação foi desmentida pelo próprio candidato e pela Igreja Católica. Mesmo assim, Lula repetiu a afirmação em ato público e na entrevista à Band: "Mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável. Enquanto eu for presidente, ela será a padroeira. Quem não quiser, que mude do Brasil". Quando a jornalista Adriana Araújo lembrou que se tratava de notícia falsa, respondeu: "Eu não sei se foi fake news". A resposta gerou críticas: em vez de esclarecer, manteve a polêmica em curso. O ministro André Mendonça, do TSE, chegou a ordenar a remoção de conteúdos, decisão depois revista pelo ministro Flávio Dino. O episódio mostrou como declarações podem ganhar força e circular amplamente, mesmo sem correspondência com os fatos.
Carta Programa: promessas e explicações que faltam
No documento entregue ao TSE, o candidato promete investir R$ 11 bilhões em segurança pública, com a transformação de 138 presídios estaduais em unidades de segurança máxima, instalação de equipamentos de monitoramento e criação do Ministério da Segurança Pública. O que não é esclarecido é de onde virão os recursos: aponta bens apreendidos do crime e reestruturação de gastos, mas não detalha quais despesas serão reduzidas nem garante que os valores apreendidos serão exclusivamente direcionados à segurança. Sobre os presídios, não explica como será a gestão compartilhada com os estados nem os custos de manutenção. A criação do ministério também já havia sido prometida em 2022 e não cumprida. Programas de ressocialização, presentes em discursos anteriores, praticamente não aparecem no texto.
Perguntas sem resposta na entrevista à Band
Na entrevista ao Canal Livre, em 27 de setembro, diversos pontos levantados pela equipe de jornalismo não receberam respostas concretas: sobre a origem exata dos R$ 11 bilhões, não houve detalhamento de cortes ou remanejamentos; sobre investigações envolvendo o círculo familiar, limitou-se a dizer que não interferiu, sem responder pontos específicos; sobre a presença da lobista Roberta Luchsinger em encontros oficiais, disse não a conhecer, apesar de registros fotográficos; sobre a redução da violência, citou números de apreensões, mas não apresentou projeção de queda nos índices criminais.
Frases que ficam e o recado sobre as eleições
Algumas declarações ganharam repercussão negativa e permanecem na memória do eleitor: chamou os homens de "covardes" por evitarem o exame de próstata e disse que mulheres "aprendem a tomar toque desde pequenas"; afirmou que "nenhuma mulher quer namorar um ajudante geral"; e agradeceu à África por "tudo o que foi produzido durante 350 anos de escravidão". Promessas como picanha e cervejinha, de 2022, agora dividem espaço com canetas emagrecedoras e medicamentos gratuitos pelo SUS.
A pergunta que não sai da cabeça: o que de fato chegou à vida do brasileiro?
Neste domingo, os brasileiros vão às urnas escolher o rumo do país. É o momento de avaliar não apenas o que se diz no palanque, mas o que se faz na prática — de comparar a palavra empenhada com a realidade entregue. A política tem memória: a taxa fica registrada, a promessa fica registrada, a frase também. O que se fala dura minutos; o que fica define a escolha de cada cidadão. Que cada voto reflita o que você realmente quer para o Brasil.
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