quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Convenções revelam mais que candidatos: expõem a disputa pelo poder nos bastidores da política paraibana

 Enquanto MDB e PL apresentaram chapas completas, o partido do governador (PP), chegou à convenção sem definir o vice, alimentando questionamentos sobre interesses políticos e falta de consenso.

Por Adriano Lourenço

As convenções partidárias realizadas na Paraíba deram o pontapé oficial na disputa pelo Governo do Estado. O MDB confirmou a candidatura de Cícero Lucena, tendo Diogo Cunha Lima como candidato a vice-governador. O senador Efraim Filho também oficializou sua chapa, anunciando a advogada Nayana Pontes como candidata a vice-governadora, transmitindo ao eleitor a imagem de uma composição concluída.

O fato que mais repercutiu, porém, ocorreu na convenção do Progressistas (PP), partido do governador Lucas Ribeiro. Mesmo sendo a legenda que ocupa hoje o comando do Estado, o evento começou sem a definição do candidato a vice-governador. A ausência de um nome oficial não passou despercebida e rapidamente abriu espaço para especulações sobre divergências internas, pressões de aliados e negociações de última hora.

Durante semanas, diversos nomes foram colocados na mesa como possíveis candidatos a vice. Nenhum, entretanto, foi confirmado até o início da convenção. O episódio evidenciou que, nos bastidores, o jogo político continua sendo movido pela busca de espaço, influência e fortalecimento partidário, muitas vezes deixando o eleitor em segundo plano.

É natural que alianças sejam construídas por meio do diálogo. O que causa estranheza é quando uma convenção — momento criado justamente para apresentar um projeto político à sociedade — acontece sem que um dos principais cargos da chapa esteja definido. Isso transmite uma imagem de incerteza e fortalece a percepção de que os interesses das legendas ainda falam mais alto do que o compromisso de apresentar uma equipe pronta para governar.

Para o eleitor, principalmente aquele que apoia o atual governo, ficam perguntas inevitáveis. Se ainda não havia consenso para definir quem dividiria o comando do Estado, como estão as demais decisões políticas que envolvem o futuro da administração? A demora foi apenas uma estratégia eleitoral ou revelou divergências que continuam existindo dentro da própria base governista?

As convenções encerram uma fase burocrática da eleição, mas iniciam outra ainda mais importante: a do julgamento popular. A partir de agora, não basta apresentar nomes. Será preciso convencer a população de que as alianças foram construídas em torno de propostas para a Paraíba, e não apenas para atender aos interesses dos partidos.

Porque, no fim, quem comparece às urnas não vota em acordos de bastidores. Vota esperando estabilidade, transparência, compromisso e resultados. E é justamente isso que a sociedade paraibana cobrará de todos os candidatos durante a campanha.

 


terça-feira, 4 de agosto de 2026

A contradição brasileira: para ser servidor público exige-se qualificação; para disputar a Presidência da República, não.

Enquanto concursos públicos cobram anos de estudo, conhecimento técnico e comprovação de escolaridade, a legislação brasileira exige do candidato à Presidência apenas os requisitos constitucionais, entre eles ser alfabetizado. O contraste abre espaço para um debate necessário sobre educação, qualificação e a responsabilidade de quem pretende governar uma nação.

Por Adriano Lourenço

A educação nunca foi apenas um direito. Ela é o maior patrimônio que uma sociedade pode construir. É através dela que uma criança aprende a interpretar o mundo, desenvolve senso crítico, conquista uma profissão e encontra oportunidades para transformar sua realidade. Não há país desenvolvido que tenha alcançado esse status sem colocar a educação como prioridade.

Tudo começa na primeira infância. É nesse período que são construídas as bases da aprendizagem, da convivência, da disciplina e dos valores que acompanharão o cidadão ao longo da vida. Depois vêm o ensino fundamental, o ensino médio, o ensino técnico, a graduação, as especializações, o mestrado e o doutorado. Cada etapa representa um degrau rumo ao conhecimento e à autonomia.

Entretanto, o Brasil parece caminhar na direção oposta.

Vivemos uma época em que muitos jovens perderam o interesse pelos estudos. Cresce o número daqueles que abandonam a escola, não concluem o ensino médio, não buscam um curso técnico e sequer planejam ingressar no ensino superior. Em muitos casos, a ilusão do sucesso rápido nas redes sociais passou a disputar espaço com o esforço diário dos livros e da sala de aula.

É nesse contexto que se fortalece a chamada geração "nem-nem": jovens que nem estudam e nem trabalham. Soma-se a isso a influência de modismos digitais, tendências passageiras e uma cultura que, muitas vezes, valoriza mais a aparência, a popularidade e os milhares de seguidores do que a qualificação profissional, a leitura e o conhecimento.

Enquanto isso, o mercado de trabalho segue impondo sua realidade.

Quem deseja conquistar estabilidade por meio de um concurso público precisa enfrentar anos de preparação. São provas de língua portuguesa, raciocínio lógico, informática, legislação, conhecimentos específicos, redação e, para muitos cargos, diploma de curso técnico ou de nível superior. Quanto maior a responsabilidade do cargo, maior também é a exigência de qualificação.

O ensino técnico, infelizmente, ainda é pouco valorizado por grande parte da juventude, apesar de representar uma excelente porta de entrada para o mercado de trabalho. Ele forma profissionais em menos tempo, atende às demandas da economia e pode ser o primeiro passo para uma graduação. Investir em educação técnica é investir em desenvolvimento.

Também é preciso reconhecer que o debate público sobre educação tem sido marcado por polêmicas. Declarações de autoridades frequentemente repercutem nas redes sociais e, em alguns casos, acabam sendo divulgadas de forma descontextualizada, alimentando interpretações equivocadas. Independentemente do lado político, quem exerce função pública deve tratar a educação com responsabilidade, pois cada palavra influencia milhões de brasileiros, especialmente crianças e jovens.

Mas talvez a maior contradição esteja justamente na política.

Para ingressar em diversas carreiras públicas, o cidadão precisa comprovar anos de estudo e formação específica. Entretanto, para disputar o cargo mais importante da República, a Constituição exige apenas os requisitos legais, entre eles ser alfabetizado.

A legislação está correta ao garantir que qualquer cidadão elegível possa disputar eleições. Esse é um princípio democrático. Porém, isso não impede que a sociedade reflita sobre o perfil daqueles que pretende escolher para governar o país.

Administrar uma nação exige muito mais do que habilidade política. Exige capacidade de compreender indicadores econômicos, discutir políticas públicas, entender os desafios da saúde, da educação, da segurança, da ciência, da tecnologia, das relações internacionais e da administração pública. Exige preparo, estudo contínuo e disposição para ouvir especialistas.

Ter um diploma universitário, por si só, não garante competência, honestidade ou boa gestão. Da mesma forma, não possuir ensino superior não torna alguém incapaz de exercer um cargo público. A história mostra exemplos para os dois lados. Mas também é verdade que uma sociedade que valoriza o conhecimento deve esperar que seus líderes demonstrem apreço pelo estudo, pela qualificação e pela busca constante de aprendizado.

O Brasil precisa resgatar o respeito pela educação. Precisa incentivar suas crianças a permanecerem na escola, estimular os adolescentes a concluírem o ensino médio, fortalecer o ensino técnico e ampliar o acesso ao ensino superior. Mais do que formar profissionais, a educação forma cidadãos conscientes, críticos e preparados para enfrentar os desafios da vida.

É impossível construir uma economia forte, reduzir desigualdades e promover desenvolvimento sustentável sem uma população qualificada.

Por isso, o debate vai muito além da política. Trata-se do futuro do país.

Enquanto milhares de brasileiros passam anos estudando para conquistar uma vaga no serviço público, deveríamos refletir sobre o nível de preparo que esperamos daqueles que desejam comandar a maior estrutura administrativa da nação.

O voto é livre, mas também é uma escolha de responsabilidade. E talvez a pergunta que cada eleitor deva fazer seja esta: estamos escolhendo apenas quem sabe fazer campanha ou quem demonstra capacidade, preparo e compromisso para governar um país de dimensões continentais?

Porque uma nação que deseja ser grande precisa colocar a educação no centro de suas decisões. E quem pretende liderá-la deve ser, antes de tudo, um exemplo de valorização do conhecimento.

Escolaridade dos Candidatos a Presidência da Republica
 
Luiz Inácio Lula da SilvaCurso de torneiro mecânico (SENAI)

Flávio BolsonaroBacharel em Direito + especializações

Ronaldo CaiadoMédico, especialista e mestre

Romeu ZemaAdministração de Empresas

Augusto CuryMédico, pós-graduação em Psiquiatria e doutorado

Aldo RebeloDireito (não concluiu)

Renan Santos
Direito (não concluiu)

"Ao observar o perfil dos principais presidenciáveis de 2026, percebe-se uma grande diferença na formação acadêmica. Há candidatos com ensino técnico, outros com graduação, especializações, mestrado e doutorado, enquanto alguns sequer concluíram o ensino superior. A diversidade de trajetórias demonstra que um diploma, sozinho, não garante competência para governar. Porém, também reforça um debate legítimo: em um país que exige formação técnica e universitária para milhares de cargos públicos, qual é o peso que o eleitor deve dar ao preparo intelectual e à busca pelo conhecimento ao escolher o futuro presidente da República?"


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

EDITORIAL - TABULEIRO ESTÁ MONTADO. AGORA A PALAVRA É DO ELEITOR

    Por Adriano Lourenço

As convenções partidárias deste fim de semana encerraram um ciclo de articulações e deram início a uma nova fase da política paraibana. As alianças foram oficializadas, candidaturas homologadas e chapas formadas. A partir de agora, os bastidores cedem espaço ao debate público.

A oposição apresentou sua composição, com o senador Efraim Filho tendo como candidata a vice Nayana Pontes, em um evento prestigiado pelo senador Flávio Bolsonaro, evidenciando o interesse da direção nacional do PL na disputa paraibana. Do outro lado, o governador Lucas Ribeiro mantém a expectativa sobre o nome que ocupará a vaga de vice, numa estratégia que demonstra que, até o último momento, a política continua sendo construída pelo diálogo e pela negociação.

Enquanto isso, outras candidaturas também entram oficialmente na disputa, ampliando as opções para o eleitor. Mais do que nomes, o que a sociedade espera são propostas viáveis para enfrentar problemas que persistem há décadas: saúde, segurança pública, educação, infraestrutura, geração de empregos e desenvolvimento regional.

No cenário nacional, o ambiente também começa a ganhar contornos mais definidos. O presidente Lula se prepara para buscar a reeleição, enquanto a oposição organiza seu projeto para disputar o Palácio do Planalto. Novos nomes surgem, alianças são redesenhadas e a polarização continua sendo um dos principais elementos da corrida presidencial.

Mas, em meio às estratégias partidárias, existe um personagem que não pode ser esquecido: o eleitor. É ele quem decidirá o futuro da Paraíba e do Brasil. Mais do que discursos emocionados, jingles de campanha ou promessas repetidas, será preciso apresentar compromisso, coerência e capacidade de transformar palavras em ações.

A campanha começa agora. Os palanques estão prontos, os candidatos definidos e os discursos serão colocados à prova. Resta saber quem conseguirá convencer uma população que, eleição após eleição, demonstra estar cada vez mais exigente e menos disposta a acreditar apenas em promessas.

Porque, ao final de toda campanha, o voto é individual, mas as consequências da escolha pertencem a toda a sociedade. E é justamente por isso que o eleitor precisa ouvir mais, observar melhor e decidir com responsabilidade. Afinal, governos passam, mandatos terminam, mas os efeitos das escolhas permanecem por muitos anos.

CONVENÇÕES POLÍTICAS: REENCONTRO DE EX-ALIADOS OU DISPUTA DE EGOS? NO FIM, UM ÚNICO OBJETIVO: A CONQUISTA DO MANDATO

 As articulações para as eleições de 2026 intensificam alianças, aproximam antigos adversários e reacendem uma disputa pelo poder. Enquanto os partidos definem seus caminhos, o eleitor precisa decidir qual projeto realmente representa os interesses da Paraíba.

Por Adriano Lourenço


As convenções partidárias já movimentam o cenário político brasileiro e, na Paraíba, os encontros têm servido muito mais do que para cumprir uma etapa do calendário eleitoral. Os eventos reúnem antigos aliados, antigos adversários, lideranças tradicionais e novos aspirantes ao poder, em uma disputa que começa muito antes da abertura oficial da campanha.

A convenção do PT, conduzida na Paraíba pela deputada estadual e presidente da legenda, Cida Ramos, transformou-se em um dos principais palcos da sucessão estadual. O encontro reuniu lideranças como o ex-governador João Azevêdo, o senador Veneziano Vital do Rêgo, o prefeito de Patos, Nabor Wanderley, o governador Lucas Ribeiro, o ex-governador Ricardo Coutinho e outras figuras que disputarão ou influenciarão diretamente as eleições de 2026.

Sob a condução de Cida Ramos, o PT reafirmou o compromisso de fortalecer o projeto político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Estado. Ao mesmo tempo, abriu espaço para diferentes lideranças que disputam protagonismo dentro do mesmo campo político. A leitura que fica é a de um partido que, neste momento, parece mais preocupado em manter unida sua base de aliados do que em afirmar uma posição própria sobre a composição da chapa majoritária. Para uns, trata-se de uma demonstração de habilidade política e capacidade de diálogo. Para outros, evidencia um PT que prefere agradar seus aliados a ser agraciado com uma definição clara, reduzindo sua margem de independência e adiando decisões que, inevitavelmente, poderão desagradar um lado ou outro da própria base governista.

Mais do que um encontro partidário, o evento revelou uma intensa movimentação de bastidores. Velhos adversários dividiram o mesmo espaço, antigos aliados reapareceram lado a lado e novas alianças começaram a ser desenhadas. A política muda de posição com rapidez, mas o objetivo permanece o mesmo: conquistar um mandato.

A presença de tantos nomes ligados ao campo político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também deixa uma pergunta inevitável: em qual palanque o presidente estará na Paraíba? Quem receberá seu apoio oficial? São respostas que somente o desenrolar da campanha poderá oferecer, mas que já alimentam as articulações e a disputa por espaço dentro da própria base governista.

Por trás dos discursos, das fotografias e dos aplausos, existe também outro sentimento: a incerteza. Cada candidatura movimenta não apenas os partidos, mas milhares de pessoas que hoje ocupam cargos de confiança, assessoramentos e funções estratégicas nas administrações públicas.

Se Cícero Lucena confirmar sua candidatura ao Governo do Estado, abre-se um novo cenário político para João Pessoa e para aqueles que hoje integram sua gestão. Da mesma forma, uma eventual eleição de João Azevêdo para o Senado poderá provocar novas acomodações dentro do grupo governista. Já Efraim Filho entra na disputa ocupando um mandato de senador, situação que lhe garante a continuidade no Congresso Nacional caso não alcance o Governo do Estado. Lucas Ribeiro, por sua vez, desponta como um dos principais nomes da sucessão estadual. Há quem questione sua experiência política, enquanto outros lembram que ele nasceu em uma família com forte tradição na vida pública paraibana. O julgamento, entretanto, pertence exclusivamente ao eleitor.

Esse cenário também desperta preocupação entre aqueles que acompanham a política de perto. Afinal, uma mudança de governo pode significar mudanças profundas nas estruturas administrativas, atingindo ocupantes de cargos de confiança e grupos políticos que hoje integram as gestões. Para muitos, a eleição representa esperança. Para outros, representa incerteza quanto ao futuro.

As convenções partidárias encerram uma etapa, mas iniciam outra muito mais importante: a da escolha do eleitor. Depois das fotografias, dos discursos, dos abraços e das alianças anunciadas, chega o momento em que cada candidato terá de convencer a população de que merece administrar o futuro da Paraíba.

Mais do que acompanhar alianças e estratégias políticas, cabe ao cidadão analisar as propostas, comparar as cartas-programa e observar a trajetória daqueles que pretendem ocupar os cargos públicos. Um mandato dura anos, e seus reflexos são sentidos diariamente na saúde, na educação, na segurança pública, na economia e na qualidade de vida da população.

Na política, antigos adversários podem se tornar aliados, alianças podem ser refeitas e interesses podem mudar conforme o cenário eleitoral. O que não pode mudar é a responsabilidade do eleitor diante da urna.

Porque votar com consciência é a chave da democracia. Mas votar apenas pela emoção pode levar à desilusão.

E quando a emoção passa, é a realidade que governa.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Brasil em 65º lugar: o retrato de uma educação que ainda luta para ser prioridade

 Apesar de avanços nos indicadores educacionais, o Brasil ainda enfrenta desafios históricos que comprometem a formação de crianças, jovens e adultos. Analfabetismo, evasão escolar, violência nas escolas, dificuldades de acesso ao ensino superior e um mercado de trabalho cada vez mais exigente ajudam a explicar por que o país permanece distante das nações que transformaram a educação em prioridade de Estado.

Por Adriano Lourenço

A imagem que circula nas redes sociais colocando o Brasil na 65ª posição entre os países com melhor educação do mundo pode gerar debate sobre a metodologia utilizada. Porém, independentemente do ranking específico, ela expõe uma realidade difícil de contestar: o Brasil continua enfrentando desafios históricos para garantir educação de qualidade para crianças, jovens e adultos.

Embora os indicadores educacionais tenham apresentado avanços nos últimos anos, o país ainda convive com milhões de brasileiros sem alfabetização plena, evasão escolar, violência dentro das escolas, desvalorização dos professores e dificuldades de acesso ao ensino superior.

O analfabetismo ainda é uma ferida aberta

Dados mais recentes do IBGE mostram que o Brasil ainda possui cerca de 9,1 milhões de pessoas analfabetas com 15 anos ou mais, o equivalente a 5,3% da população nessa faixa etária. Apesar de ser a menor taxa da série histórica, o número continua alarmante para uma das maiores economias do mundo.

A situação é ainda mais grave entre idosos e regiões historicamente vulneráveis. O problema demonstra que o país não conseguiu universalizar plenamente o acesso à alfabetização, especialmente para adultos que não tiveram oportunidade de estudar na idade adequada.

O desafio permanente da EJA

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) surgiu justamente para corrigir essa distorção histórica. Entretanto, muitas turmas são fechadas por falta de alunos, enquanto trabalhadores enfrentam jornadas exaustivas que dificultam a permanência na escola.

Muitos brasileiros precisam escolher entre estudar ou colocar comida na mesa. A consequência é um ciclo de baixa escolaridade, menor renda e poucas oportunidades profissionais.

Sem investimentos consistentes na EJA, o Brasil continuará convivendo com gerações que foram excluídas do sistema educacional e que dificilmente conseguirão recuperar o tempo perdido.

A evasão escolar continua preocupante

Segundo dados do IBGE, mais de 8 milhões de jovens entre 14 e 29 anos abandonaram ou sequer frequentaram o ensino médio. Entre os principais motivos estão a necessidade de trabalhar, gravidez precoce e falta de interesse nos estudos.

A evasão escolar não é apenas um problema educacional. Ela está diretamente ligada ao aumento da vulnerabilidade social.

Quando um adolescente abandona a escola, suas chances de inserção qualificada no mercado de trabalho diminuem drasticamente. Em muitos casos, a rua passa a ocupar o espaço que deveria ser da sala de aula.

Violência, tráfico e agressões dentro das escolas

Outro desafio crescente é a insegurança no ambiente escolar.

Professores relatam aumento de agressões físicas e verbais, enquanto escolas localizadas em áreas vulneráveis convivem diariamente com a influência de facções criminosas e do tráfico de drogas.

Em diversas comunidades, organizações criminosas acabam exercendo influência sobre jovens que enxergam no crime uma alternativa mais rápida de ascensão financeira do que anos de estudo.

O resultado é devastador: crianças e adolescentes são recrutados cada vez mais cedo para atividades ilícitas, comprometendo seu futuro e ampliando os índices de violência.

O Pé-de-Meia resolve ou apenas ameniza o problema?

O programa Pé-de-Meia foi criado com o objetivo de reduzir a evasão escolar através de incentivos financeiros para estudantes do ensino médio.

Os defensores do programa afirmam que ele ajuda a manter jovens na escola. Já os críticos argumentam que a política pública não enfrenta as causas estruturais do problema, como a baixa qualidade do ensino, a falta de perspectiva profissional e a ausência de oportunidades econômicas para as famílias.

O debate permanece aberto: pagar para o aluno permanecer na escola é suficiente para transformar sua realidade ou apenas posterga problemas que exigem soluções mais profundas?

A geração "nem-nem" e a incerteza sobre o futuro

Outro dado preocupante do IBGE é o contingente de jovens que não estudam nem trabalham, conhecidos popularmente como "nem-nem".

Em 2024, aproximadamente 8,8 milhões de jovens encontravam-se nessa situação, representando cerca de 18,5% da população entre 15 e 29 anos.

Trata-se de uma geração que enfrenta dificuldades para concluir os estudos e, ao mesmo tempo, encontra barreiras para ingressar no mercado de trabalho.

Sem qualificação e sem emprego, muitos acabam presos a uma condição de dependência financeira e insegurança quanto ao futuro.

O sonho do ensino superior e a realidade das dívidas

Chegar à universidade ainda é um desafio para milhões de brasileiros.

Mesmo com programas como o FIES, muitos estudantes concluem seus cursos acumulando dívidas significativas.

O problema se agrava quando o recém-formado encontra um mercado de trabalho saturado, exigindo experiência profissional justamente de quem busca o primeiro emprego.

O resultado é um cenário conhecido por muitas famílias brasileiras: diploma na mão, dificuldade de colocação profissional e parcelas do financiamento estudantil chegando todos os meses.

Embora o percentual de brasileiros com ensino superior tenha crescido nos últimos anos, apenas cerca de 20,5% da população adulta possui graduação completa.

Uma questão de prioridade nacional

Os números mostram que o Brasil avançou em alguns indicadores educacionais, mas ainda está distante dos países que lideram os rankings internacionais.

Finlândia, Coreia do Sul, Canadá e Japão transformaram a educação em política de Estado. No Brasil, a educação frequentemente se torna tema de campanhas eleitorais, mas raramente recebe a continuidade necessária para produzir mudanças estruturais.

Enquanto milhões de brasileiros ainda enfrentarem analfabetismo, evasão escolar, violência nas escolas, dificuldades de acesso ao ensino superior e barreiras para conseguir o primeiro emprego, o país continuará distante das nações que enxergam a educação não como gasto, mas como investimento.

A grande pergunta que permanece é simples: o Brasil quer realmente ser uma potência educacional ou continuará tratando a educação como prioridade apenas nos discursos?

Do chicote à carteira de trabalho: o trabalhador mudou de século, mas será que a exploração mudou de lado?

 O Brasil aboliu a escravidão em 1888. Mas, em pleno século XXI, denúncias de agressões a trabalhadores, discussões sobre direitos, greves contestadas e regras cada vez mais rígidas para a aposentadoria levantam uma pergunta incômoda: o trabalhador brasileiro conquistou respeito ou apenas mudou a forma de ser explorado?

Por Adriano Lourenço

Brasil aboliu a escravidão em 1888. Mas, em pleno século XXI, denúncias de agressões a trabalhadores, discussões sobre direitos, greves contestadas e regras cada vez mais rígidas para a aposentadoria levantam uma pergunta incômoda: o trabalhador brasileiro conquistou respeito ou apenas mudou a forma de ser explorado?

A história do trabalho é, antes de tudo, a história da luta por dignidade.

Durante a Revolução Industrial, homens, mulheres e crianças enfrentavam jornadas que ultrapassavam 14 horas diárias, sem férias, descanso remunerado ou qualquer garantia trabalhista. Acidentes eram tratados como parte da rotina. A vida do trabalhador valia menos que a produtividade das fábricas.

No Brasil, antes disso, a escravidão marcou profundamente as relações de trabalho. Milhões de pessoas foram arrancadas da África, acorrentadas, castigadas com chicotes, submetidas às senzalas e transformadas em mercadorias humanas.

A abolição da escravidão representou um marco histórico, mas não eliminou todas as formas de exploração.

Décadas depois vieram importantes conquistas: salário mínimo, férias remuneradas, jornada limitada, licença-maternidade, descanso semanal, décimo terceiro salário, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e diversos outros direitos consolidados pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Mesmo assim, a luta nunca terminou.

Quando trabalhadores cruzam os braços reivindicando melhores salários, condições dignas ou respeito, muitas vezes encontram resistência não apenas dos empregadores, mas também do próprio sistema judicial. Em diversas ocasiões, greves acabam sendo consideradas abusivas ou sofrem restrições impostas pela Justiça, especialmente quando envolvem serviços essenciais. O direito constitucional de greve frequentemente entra em conflito com o interesse público e com a continuidade dos serviços.

Outro tema que gera enorme preocupação é a aposentadoria.

As mudanças nas regras previdenciárias elevaram a idade mínima e o tempo de contribuição, fazendo com que milhões de brasileiros precisem permanecer por mais tempo no mercado de trabalho para conquistar o benefício. Para quem começou a trabalhar muito cedo ou exerce atividades pesadas, a sensação é de que a linha de chegada foi novamente empurrada para frente.

Como se isso não bastasse, episódios recentes reacenderam uma indignação que parecia pertencer apenas aos livros de História.

Em uma fábrica da multinacional chinesa Midea, em Pouso Alegre (MG), um gerente chinês foi acusado por trabalhadores e pelo sindicato de agredir um funcionário brasileiro com uma correia de borracha, episódio que rapidamente ganhou repercussão nacional. A empresa afastou o gestor e informou que apura o caso, embora conteste a versão de que tenha ocorrido um "chicoteamento".

Independentemente da conclusão das investigações, os relatos provocaram indignação. A palavra "chicote" carrega um peso histórico impossível de ignorar. Ela remete imediatamente ao período escravocrata, quando a violência física era utilizada como instrumento de dominação. Ver denúncias semelhantes surgirem em pleno século XXI provoca um inevitável choque entre passado e presente.

Infelizmente, esse não é um caso isolado.

Ano após ano, operações de fiscalização continuam resgatando trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão em fazendas, carvoarias, garimpos e grandes obras. Jornadas exaustivas, alojamentos precários, retenção de documentos e restrição da liberdade ainda fazem parte da realidade de muitos brasileiros.

Essa realidade também levanta outro debate: onde estão os Direitos Humanos quando o assunto é a dignidade do trabalhador? Até o momento, ao menos sob a ótica da repercussão pública, não houve manifestações de grande destaque sobre o episódio envolvendo a fábrica em Minas Gerais, o que alimenta críticas de quem vê uma atuação seletiva diante de determinadas pautas.

O trabalhador brasileiro não precisa de discursos. Precisa de respeito. Precisa voltar para casa sem humilhação. Precisa ter segurança para reivindicar seus direitos sem medo de punições desproporcionais. Precisa confiar que décadas de trabalho serão suficientes para garantir uma aposentadoria digna. E precisa ter a certeza de que, dentro de qualquer empresa, seja ela brasileira ou estrangeira, a legislação nacional será respeitada acima de qualquer cultura empresarial.

Porque um país que permite que o trabalhador seja tratado como descartável não está apenas desrespeitando sua legislação. Está traindo a própria história.

A escravidão foi abolida há mais de um século, mas toda vez que um trabalhador é humilhado, agredido ou submetido a condições degradantes, a sociedade recebe um duro lembrete de que a liberdade não pode existir apenas no papel. Ela precisa estar presente, todos os dias, no chão de fábrica, no campo, no comércio e em qualquer ambiente onde alguém viva do próprio trabalho.

Condutores de ambulância: reconhecimento na lei, valorização ainda distante da realidade

Apesar da regulamentação da profissão pela Lei nº 15.250/2025, os condutores de ambulância ainda enfrentam uma rotina marcada por baixos salários em diversas regiões do país, jornadas exaustivas, falta de seguro de vida e condições de trabalho que, segundo a categoria, estão longe de refletir a importância de quem diariamente transporta pacientes e ajuda a salvar vidas.

Por Adriano Lourenço


Quando uma ambulância cruza a cidade com a sirene ligada, a atenção da população se volta para o paciente que está sendo socorrido. Poucos, porém, percebem que atrás do volante está um profissional que também coloca a própria vida em risco para garantir que o atendimento aconteça a tempo. Os condutores de ambulância convivem diariamente com o trânsito caótico, rodovias perigosas, acidentes, violência urbana e a enorme responsabilidade de transportar pacientes em estado grave. São profissionais que precisam agir com rapidez, equilíbrio emocional e conhecimento técnico, sabendo que qualquer erro pode custar uma vida.

A regulamentação da profissão pela Lei nº 15.250/2025 representou uma conquista histórica. A legislação definiu os requisitos para o exercício da atividade, reconheceu oficialmente a categoria e assegurou direitos importantes, como a possibilidade de acumulação de cargos públicos, desde que haja compatibilidade de horários e sejam respeitados os períodos legais de descanso. Trata-se de um reconhecimento que fortalece uma categoria que há décadas reivindicava espaço e respeito. Entretanto, o reconhecimento jurídico ainda não se traduziu em valorização profissional.

Em todo o país, a categoria enfrenta uma realidade marcada por salários desiguais entre estados e municípios, jornadas de trabalho exaustivas e condições que, muitas vezes, não refletem a importância da função exercida. Há municípios onde os vencimentos são significativamente inferiores aos praticados em outras regiões, evidenciando a ausência de uma política nacional que estabeleça critérios mínimos de valorização. Essa disparidade faz com que muitos profissionais precisem buscar uma segunda fonte de renda para garantir o sustento de suas famílias, realidade que a própria legislação passou a reconhecer ao permitir, dentro dos limites legais, a acumulação de cargos.

Outro desafio é a falta de um seguro de vida específico para a categoria. Os condutores enfrentam diariamente riscos elevados de acidentes, longas viagens, situações de emergência e ocorrências que colocam suas vidas em perigo. Apesar disso, muitos continuam trabalhando sem qualquer proteção adicional para suas famílias caso ocorra uma tragédia durante o exercício da profissão.

Nos últimos meses, parlamentares têm intensificado discursos em defesa dos condutores de ambulância, apresentando propostas e prometendo avanços para a categoria. É positivo que o tema esteja sendo debatido no Congresso Nacional, principalmente em um momento em que a profissão conquistou sua regulamentação. No entanto, os profissionais esperam que essas manifestações não se limitem ao período que antecede as eleições. A categoria cobra que o debate resulte em medidas concretas, como remuneração compatível com a responsabilidade da função, definição de uma carga horária mais humana, garantia de descanso adequado, investimentos em capacitação permanente, melhores condições de trabalho, criação de um seguro de vida específico e políticas públicas que assegurem dignidade à profissão.

Os condutores de ambulância não transportam apenas pacientes. Eles transportam esperança, urgência e a expectativa de que vidas possam ser salvas. São homens e mulheres que enfrentam diariamente situações extremas para cumprir uma missão essencial ao funcionamento da saúde pública. Merecem muito mais do que homenagens em datas comemorativas ou promessas em discursos políticos. Merecem respeito permanente, reconhecimento efetivo e valorização concreta.

Uma sociedade que confia aos condutores de ambulância a missão de salvar vidas não pode aceitar que esses profissionais continuem enfrentando jornadas exaustivas, remuneração desigual, falta de proteção e insegurança profissional. O reconhecimento legal foi uma conquista histórica. Agora, cabe aos gestores públicos e ao Congresso Nacional transformar esse reconhecimento em políticas efetivas, para que quem conduz a esperança também tenha garantidos seus direitos, sua segurança e sua dignidade.